Fernando Parente entrevista André Graça

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Fernando Parente entrevista André Graça, Treinador da equipa Sub-20 do Covão do Lobo .

Amigo André Graça, conta aos leitores do Desportivo Transmontano como iniciaste a tua carreira como treinador de futsal, sendo tu um jogador formado no Futebol de 11?

Antes de mais quero agradecer a entrevista para um local onde já tantas pessoas de “bom nome” puderam deixar o seu testemunho. Tudo começou num dos vários torneios de verão onde participava e, na brincadeira, o Mister Luís Silva disse-me para largar o futebol(até porque tinha sido operado aos ligamentos e tinha começado a trabalhar), e ir dar-lhe uma ajuda com um grupo de juvenis muito bom,onde teríamos a possibilidade de ser campeões distritais. Assim foi …Tudo começou aí, num verão que sem dúvida mudou a minha vida e o meu amor pela bola! Comecei aí, 2 anos como adjunto e depois lancei-me á aventura sozinho, em busca de mais e mais, tendo a sorte de o GD Gafanha na altura estar numa posição privilegiada do futsal português e ter boas pessoas na sua liderança,onde aprendi bastante mesmo!

Formação, feminino ou seniores masculinos, qual a tua preferência como treinador?

Preferência pelos anos todos em que estive a treinar, sem dúvida a formação. É um capricho, é mais motivante formar jogadores, tentar converter certas mentalidades que desde muito cedo pensam que serão os “Pedro Costa ou Ricardinhos” do futuro.. Mas o jogo vai muito mais além e, felizmente consegui dar um bocadinho de mim em todas as equipas que treinei. É uma preferência que poderá mudar e neste momento devido a uma série de condicionantes pode estar em marcha um novo rumo.

Achas que todos os treinadores de futsal devem passar pela formação?

Discordo,em absoluto. Na formação deveriam passar todos, talvez. Mas o que vai fazer um treinador para lá,senão tem vontade,gosto,motivação,perspicácia,bom senso,se não entende os problemas da idade? Acho que na formação deve estar quem quer,e passar os que sintam que podem retirar algo de benéfico para eles mesmos como treinadores/pessoas,mas também os que possam dar o seu melhor para com os(as) atletas!

Uma vez que já passaste por alguns clubes da AFA, como vês a evolução da modalidade no distrito do Aveiro?

A evolução de quê? Da modalidade dentro do campo ou fora do campo? Apesar de termos mudado alguma coisa dentro do campo devido à vontade de alguns treinadores em melhorar,devido ao melhor conhecimento do jogo que se transmite para os atletas e fundamentalmente devido ao facto de tudo “ser mais fácil”, desde a informação ao recrutamento de atletas(já não vêm apenas os que não sabem jogar futebol),penso que muito ainda há por fazer. Aponto apenas 3 fatores que na minha perspetiva serão importantes: Não nos escondermos na nossa “quintinha” para o adversário não ser melhor que nós (tive um excelente,diria até, fantástico exemplo nesta estreia do Campeonato Nacional sub-20,onde tínhamos um grupo de facebook para partilha de informação,vídeos e ao mesmo tempo para existir um maior à vontade entre nós, treinadores), não passarmos a época após época a reclamar das convocatórias para as selecções porque no clube não existem outros treinadores a reclamar das nossas opções e sermos mais sérios. A seriedade e honestidade são valores que fazem falta,principalmente entre pessoas que partilham diariamente a mesma paixão,o mesmo hobby.

Passaste 8 anos a treinar escalões de formação, sendo adjunto em épocas intercaladas nos seniores. O que te fez abraçar a equipa sénior do Gafanha na época 2010-11?

Sinceramente, ainda hoje não tenho a certeza da verdadeira razão,provavelmente o gostar muito do Gafanha,penso que será a opção mais válida. Retirei imensas coisas dessa época,coisas essas que me têm ajudado hoje em dia a não voltar a fazer e outras com as quais vou melhorando diariamente. Tinha esperança numa época tranquila, mas quando um grupo tem 20 pessoas e todas elas não empurram a parede para a mesma direção dificilmente ela não cairá, e com muita pena minha isso aconteceu, por vários factores e com vários culpados,eu incluído!

E no feminino, o que pensas do plano estratégico da FPF para o mesmo? Achas que vai surtir efeito, tendo em conta que das muitas equipas campeãs distritais, apenas 4 se apuram para a Taça Nacional (2 zona norte, 2 zona sul)?

Eu ando muito atento ao feminino, ando a tentar perceber o que vai acontecer ou o que vai ser deste escalão daqui a 5 anos… Quando vejo equipas campeãs distritais a pensarem seriamente no abandono ou a recusarem a subida de divisão,fico um bocado preocupado. Ou se trabalha muito ou a qualidade irá cair bastante,porque as boas jogadoras estão todas a passar os 25/26 anos,assim como muitas outras têm mais de 30 e, refiro-me num contexto geral(nacional e distrital),sendo poucas as miúdas com 18/22 que conseguem estar consolidadas no “mercado nacional” como tínhamos há 4 anos um vasto lote de miúdas já tornadas mulheres (Pisko, Juliana, Ferreira, Melissa, Inês Fernandes,etc …).

Em várias épocas chegaste a treinar 2 equipas no mesmo ano. O Futsal sempre foi compatível com a tua vida profissional?

Raramente tive problemas em compatibilizar a minha profissão com o meu gosto pelo futsal, muito esforço, alguma compreensão da parte do “patrão” e várias horas a dever ao descanso! Mas quando se gosta,tudo se consegue!

E a nível de estratégia, não se tornava complicado treinar na mesma época juvenis no federado e uma equipa sénior no universitário masculino, onde terias que lidar com jogadores totalmente distintos uns dos outros e cada qual com a metodologia dos seus clubes?

Eu era treinador dos Juvenis e adjunto no Universitário, logo por aí existia uma maior dificuldade em gerir deslocações,horários de treino e jogo (porque na altura o Universitário ainda se jogava de maneira diferente, sendo os jogos à quinta-feira,dia por vezes dos meus treinos,coisa que conseguia gerir de forma aceitável) do que propriamente o treino em si,porque o papel do adjunto naquela altura era “apenas” trabalhar a parte de Guarda-redes, sendo coisas totalmente distintas.

Sentes que atingiste a tua grande maturidade como treinador nestes últimos três anos em que serves a equipa Sub-20 do Covão do Lobo e onde já foste adjunto por duas épocas do nosso grande amigo Vítor Blanco na equipa sénior do mesmo clube?

Não sei se conseguirei afirmar isso com toda a certeza, porque existem problemas/obstáculos ao longo deste trajecto que me fizeram crescer,ver certo tipo de coisas de uma maneira completamente diferente. Mas sei que dei um salto enorme na perspetiva da perceção do jogo, na forma como se podem abordar diversos momentos do jogo, na maneira de lidar com os próprios jogadores. Cheguei a dizer várias vezes em tom de brincadeira com alguns amigos, “Eu que pensava que já sabia muito disto,afinal era um nabo que aqui andava e o Vítor já me fez mudar tanto e aprender tanto!”,acho que isto diz tudo. Grande pessoa, grande homem e grande treinador! Recomendo.

E que te apraz dizer do Gafanha, o teu clube?

É o amor de uma vida, é o clube que está a 5 minutos de minha casa, onde passei a minha infância, onde continuo a ir ver jogos de futebol de 7, de formação de futebol de 11 e continuo a ser bem recebido. Foi o clube onde fui um dos capitães na formação,foi o clube que com 16 anos me propôs ser adjunto de uma equipa de infantis na altura, é o clube do qual gosto.

Gafanha (Futebol 11 e Futsal), Universidade de Aveiro, NEGE, Beira-Mar, Clube PT e Covão do Lobo. De todos eles qual o que te marcou mais?

Em diferentes contextos, com capacidades diferentes,com estruturas muito diferentes e abordagens ao desporto completamente opostas em alguns casos.

Gafanha e NEGE porque são da minha área de residência foi sempre por gosto em ajudar e dar algum tipo de visibilidade.

Universidade de Aveiro foi uma forma de aprender algo mais numa fase em que o futsal estava a crescer.

Beira-mar uma experiência diferente, uma experiência onde era necessário ser mentalmente forte em vários aspetos, era um clube de cidade onde as dificuldades para treinar eram muitas, sendo sem dúvida o clube com menos condições para um treinador fazer o seu trabalho,tendo como é obvio, coisas boas como algumas pessoas que o envolviam e que davam tudo por aquele clube mesmo apesar das dificuldades.

Clube PT, um marco na minha vida como treinador, um clube que obrigava todos os atletas a jogar,que se preocupava em ensinar futsal e que privilegiava as relações humanas com todos os intervenientes. O clube exemplo que vou levar para sempre!

Covão do Lobo, a exigência, a aprendizagem e a evolução mais acentuada a todos níveis da minha carreira! Sem dúvida!

Covão do Lobo, equipa de Sub-20, fase final. NEGE, equipa sénior futsal feminino distrito de Aveiro. Duas realidades completamente distintas, mas qual a que ta dá mais “gozo” treinar, onde sentes mais a evolução da equipa?

Duas equipas, uma época muito boa, que ninguém tenha dúvidas disso! Queremos sempre mais, mas o que fizemos foi gratificante e especialmente importante, para todos sentirem que com trabalho tudo é possível! O gozo é o mesmo, em contextos diferentes. As miúdas nunca tinham tido um verdadeiro treinador de futsal, estavam pouco habituadas ao treino, à intensidade, ao trabalhar nos limites,e passo a passo isso foi-se conseguindo até que hoje cada uma delas pode dizer que evoluiu. Eu tenho a certeza disso,conhecem melhor o jogo,sabem posicionar-se de maneira diferente,conseguem perceber alguns dos erros que cometem e isso é fundamental para o crescimento. Os miúdos foram homens,tiveram uma evolução diferente, até porque estavam num patamar muito superior e vejo melhorias em muitos casos individuais que depois foram importantíssimos para o crescimento do colectivo!

Diferenças e comportamentos que encontraste ao nível de treino dessas duas equipas?

Quatro palavras que te definem objectivamente o que senti ao longo desta época: perceção, compromisso, maturidade e ambição.

Perceção do erro, coisa que elas não tinham e agora já tem minimamente, eles percebem sempre quando fazem “borrada”,o que ajuda mais rapidamente a corrigir e melhorar. Com eles tive um treino toda a época com menos de 10 jogadores e foi numa altura complicada a nível de lesões, com elas tive 1 treino toda a época com a totalidade do plantel. A forma como aceitam e reagem a certo tipo de regras,dentro e fora de campo é totalmente diferente entre ambas as equipas e a ambição, eles treinam e jogam para estar ao mais alto nível, elas simplesmente jogam onde a amiga estiver e para onde for, independentemente do objetivo da equipa (uma % obviamente que não são todas).

Sentes que a competitividade na AF Aveiro a nível dos escalões de formação e feminino está acima ou abaixo de outros distritos de Portugal?

Como em todos os casos, há uns melhores e outros piores, e os vários resultados nas diversas competições nacionais assim o demonstram, mas logicamente que só trabalhando é que poderemos aumentar o número das piores e reduzir o número das melhores!

Voltando ao plano estratégico da FPF para o futsal. Eu, como treinador desta modalidade, este novo modelo de competição da 2ª divisão vai fazer com que muitos clubes com provas dadas nos nacionais tenham dificuldade em garantir a permanência na mesma, principalmente na série C, que na minha opinião, era a série mais equilibrada e difícil das três da Zona Norte. E tu, o que achas?

Não acompanhando rigorosamente, não gosto de dar a minha opinião. Sei que no momento da transição comentei que era contra este tipo de alteração,até porque e como está a vista de todos raramente uma equipa na 2ª divisão terminava a época sem vitórias ou sem pontos…o que este ano pode ter acontecido em alguns casos,coisa que não dignifica em nada o futsal. Mas vamos esperar para ver se no futuro melhora. Apenas tenho a certeza de que será muito mais difícil apostar em jovens jogadores que não sejam de top nacional! Isso é uma certeza…muitos dos clubes não têm o conforto para colocar os miúdos a jogar! Mas vamos esperar…

Treinas nesta época que está prestes a terminara equipa de Sub-20 do Covão do lobo, como já referi em algumas perguntas. O último lugar nesta fase final, depois da excelente prestação na primeira fase, sabe a pouco?

Claro que sabe a pouco, ficámos justamente em 3º lugar na primeira fase,fizemos resultados impensáveis,ganhamos a equipas muito boas e fomos um grupo que se dedicou bastante sem problema nenhum em perceber que seríamos claros candidatos a não ficar nos 4 primeiros. Após a realização de uma primeira fase tão boa e meritória queríamos mais, mas não nos deixaram. O bruxo,o diabo ou quem quer que tenha sido não nos deixou. Nestes 14 jogos da 2ª fase apenas em 8/9 deles apresentámos um GR a 100% (houve uma altura em que os 3 do plantel estavam lesionados),juntando aos 4 jogadores de campo que foram fazendo sacrifício atrás de sacrifico para tentar jogar o que em alguns casos não aconteceu porque simplesmente não dava,desde ligamentos ,tendão rotuliano, virilhas, lesões graves e todas ocorridas em pleno jogo,coisa que nos condicionava muito nos vários jogos que disputámos,principalmente quando o nível é tão elevado como o deste campeonato e quando não dispomos de soluções como outras equipas. Mas sinceramente, com tudo o que aconteceu? Sinto-me orgulhoso deste trajeto,sinto-me orgulhoso da minha equipa que após levar 17-0 em Vila do Conde,na semana a seguir deu o peito às balas e encarou o Sporting sem medos ou receios (e olhem que não é fácil levar 17,não o desejo a ninguém),assim como disputou todos os jogos, todos. Com uma vontade inexcedível de fazer o melhor possível e representar o clube e o distrito com distinção e sem ter ninguém que pudesse acusar do que quer que seja! Por tudo isto, sim, sabe a pouco,muito pouco!

Qual o segredo para o sucesso que tens conseguido numa equipa maioritariamente composta por jogadores da terra?

O segredo foi conseguir perceber que o trabalho anterior do Vítor estava a ser muito bom e dar-lhe continuidade,colocando como é obvio, algumas coisas hà minha imagem. Reforçamos a equipa com 3 ou 4 jogadores de fora,conseguindo sempre dar uma excelente imagem pelos pavilhões onde passámos(exceto naquele dia dos 17!)

Continuação no Covão do Lobo ou novo projeto?

Sinceramente, a minha vontade, a minha necessidade é parar alguns meses. Há muito a fazer na vida pessoal, mas para já nada está definido, mas uma coisa é certa,se treinar em 2015/2016 será em Covão do Lobo ou na China eheh.

Tu, como ex-atleta e ex-Treinador do futsal universitário, como tens visto o desenvolvimento da prova rainha da FADU?

Tem-se tentado fazer o melhor, infelizmente o tempo não me permite acompanhar a par e passo, mas consigo perceber que estamos a melhorar gradualmente,quer em termos da competição em si, com os vários torneios de apuramento,quer com as participações internacionais que raramente não fazemos bons resultados! Parabéns a todos pelo esforço!

Amigo André Graça, deixaste algo por dizer que não tenha sido referido nas questões anteriores?

Deixar acima de tudo o agradecimento e reconhecimento a uma pessoa fantástica que é o meu adjunto, Ismael Martins, que tudo faz por aqueles miúdos! Homem no verdadeiro sentido da palavra!

Quero agradecer a oportunidade e espero que esteja ao gosto dos leitores,meus pais e a todos aqueles que esta época têm sido fundamentais nas duas equipas que treino, o meu muito obrigado por tudo o que juntos temos conseguido!

A ti amigo Parente, um forte abraço.

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Comentário

1 comentário

  1. o sr. Fernando Parente é o novo treinador dos Amigos Abeira Douro.
    seja bem vindo mister

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