Hoje, leitores do Desportivo Transmontano apresento-vos uma entrevista que efectuei a Ricardo Tutilo Gallati, atualmente jogador do Rhibo Fossano de Itália. Ele coincidiu comigo no ano da minha estreia como treinador futsal quando fui campeão da 2ª Divisão Nacional e finalista da final-four da Taça de Portugal na época 2006-2007 ao serviço da AAUTAD/Realfut.

Gallati, a tua vida sem o Futsal, o que seria?

Essa é uma boa pergunta, já que vivo ainda do futsal. Seria difícil porque eu amo o que eu faço e jogar futsal é um enorme prazer.

Amigo, o teu percurso de formação no Futsal, está ligado ao clube da tua terra lá no Brasil, o Pneus Shund São Judas. Como foi a transição de um campeonato estadual para a Liga Brasileira, onde estiveste, após a tua formação, ao serviço do Sociedade Esportiva Palmeiras?

Essa transição não é difícil, já que quase todos os times dos estaduais também jogam a liga nacional.

Antes da primeira aventura na Europa, sais desse grande clube (Palmeiras) e ingressas no Ricardinho Sports de Curitiba. Conta-nos como foi a passagem dum estado tão enorme como o de São Paulo para o de Paraná?

Mudanças nunca são fáceis. quando fui para Ricardinho Sport, o time foi montado para ganhar e assim aconteceu. Ganhamos os 2 campeonatos que disputamos. A diferença lá era o frio e o estilo de jogo que era muito mais veloz, mas acho que me adaptei bem e fui muito feliz ali.

Coincidência ou não, é nesse clube que ganhas os teus primeiros títulos: campeão estadual e campeão metropolitano. Sendo os mesmos ganhos no mesmo ano, 2002, achas que é mais fácil ganhar troféus no Brasil devido às várias competições existentes ou na Europa?

Acredito que ganhar títulos é sempre difícil, seja no Brasil como na Europa. A diferença é que no Brasil jogam-se 2 campeonatos anuais e na Europa só 1, mas são campeonatos muito disputados e difíceis de ganhar.

Nesse mesmo ano dá-se a tua saída para Itália. Vais representar o Augusta, pertencente à região da Sicília e província de Siracusa. Que diferenças encontraste entre o futsal brasileiro e o italiano?

Bom, como vinha de um campeonato paranaense, onde o jogo é veloz, diferente de São Paulo e mais técnico. Quando cheguei a Itália, reparei que o nosso treinador era do Paraná e tinha mais ou menos o mesmo estilo de jogo que eu estava acostumado, então me adaptei rápido, o difícil era o frio mesmo.

Passados dois anos, regressas ao Brasil para representares o Irati Futsal, outra equipa do estado do Paraná. As saudades da família falaram mais alto na altura, ou o convite foi tentador?

Na verdade eu fiquei no Brasil para acabar a minha faculdade. Quando terminei apareceu essa proposta de Irati e como ainda estava no Brasil decidi em fazer mais um ano lá.

Foste também, para quem não te conhece, jogador universitário e campeão da série ouro da Universidade São Judas Tadeu em São Paulo. Alguma vez estiveste perto de representar a Seleção Universitária Brasileira de Futsal nos Mundiais Universitários?

Foram 2 títulos como universitário e naquela época o time campeão representava a Selecção. Porém, quando fomos campeões a Federação alterou essa regra, e levaram outros jogadores de outras equipas. O desporto por vezes é um meio complicado, onde a politica se sobrepõe ao merecimento.

Novo salto para a Europa e desta vez para Espanha. Assinas por cinco anos pelo Ourense, mas ao terceiro és emprestado, devido ao excesso de extracomunitários no plantel à AAUTAD/Realfut de Vila Real. Como foi passar de profissional a semiprofissional?

No começo não foi fácil, porque estava habituado a um outro ritmo, mas quando cheguei em Portugal fui bem-recebido e as pessoas sempre me ajudaram. No final fomos recompensados com o titulo.

Nessa época, 2006-2007, foste um dos que contribuiu para que a mesma se tornasse inesquecível: campeão nacional da 2ª divisão e um dos 4 clubes presentes na Final Four da Taça de Portugal. Esperavas alcançar tanto em tão pouco tempo numa realidade tão distinta daquela a que estavas habituado?

Confesso que quando cheguei não sabia o que iria encontrar, mas com o decorrer do campeonato vi que tínhamos um ótimo time, muito competitivo e com grandes jogadores. Mas acima de tudo grandes homens. Fomos campeões e por pouco não disputamos a final da copa, um fato inédito para um time da 2 divisão.

Sinceramente, o que a AAUTAD/Realfut significou para ti?

Significou muito, aprendi muitas coisas, com grandes pessoas que faziam parte daquele grupo maravilhoso. Tenho saudades daquela época.

Passados três anos, o clube deixou de competir a nível federado. Como encaraste de longe essa situação, sendo que tu fizeste parte da história do mesmo?

É um pecado ver os times de futsal sumirem do âmbito desportivo depois de terem feito história dentro da modalidade, é triste.

Pneus Shund São Judas, Sociedade Esportiva Palmeiras, Ricardinho Sports de Curitiba, Irati Futsal no Brasil, Ourense em Espanha, AAUTAD/Realfut em Portugal e Augusta, Torino, Lecco, Sala Consilina, Calabria Ora, Tollo, Civitella e atualmente Rhibo Fossano de Itália, foram os clubes representados por ti até ao momento da tua carreira. Qual de todos os campeonatos o mais difícil para se jogar?

Acredito que ainda seja o campeonato brasileiro, por ter tantos jogadores de qualidade em todas as equipes, os jogos são verdadeiras guerras.

E aquele onde sentiste que as tuas qualidades individuais (ala de movimentação com boa finalização, qualidade de passe, assistências e remate forte) foram mais e melhor aproveitadas?

Contribui em todas as equipes que passei e fui campeão em todos os lugares que estive, acho que não tenho um lugar onde eu não tenha sido melhor aproveitado.

Numa palavra, diz-me o que cada um dos clubes que representaste significou para ti e na tua carreira?

Experiência.

É complicado ser emigrante/jogador de futsal?

Como tudo na vida no começo é complicado, mas depois nos adaptamos e tudo fica mais fácil.

Na tua carreira já passaste pela liderança de vários treinadores. Conseguiste aprender e evoluir com eles todos? Quais os que te marcaram mais, em que aspetos e porquê?

Aprender e crescer é a palavra-chave para quem quer viver do desporto. Eu aprendi muito com todos treinadores sem exceção e cresci para me tornar um bom jogador de futsal. Cada treinador tem as suas características, então, não dá para dizer que um é melhor que o outro, são diferentes, isso é que torna o desporto divertido.

Na Europa já passaste por três campeonatos diferentes: o espanhol, o português e o atual, em Itália. Quais as principais diferenças que encontraste desses dois campeonatos para o nosso?

O campeonato espanhol e muito tático, muita defesa, já o italiano é um pouco mais veloz e as defesas são quase sempre individuais. Em Portugal o jogo é mais aberto e tem muito contra-ataque, acho que essas são as verdadeiras diferenças.

O emigrar, foi em busca de novos objetivos, à procura dum futuro melhor para ti e para os teus, ou no Brasil só se consegue viver do Futsal quem joga no Brasileirão e nos clubes principais?

A verdade é que no Brasil só se consegue viver do futsal se você jogar num grande clube. Os clubes pequenos pagam pouco, já na Europa é diferente, até o clube de médio porte consegue pagar bons salários.

Passaste por várias equipas nos três campeonatos europeus referenciados, das quais acredito que nem sempre a experiência vivida deva ter sido a melhor para recordar. Quais os problemas que mais afetam o jogador/emigrante?

Primeiro o idioma, se você não entende bem, acaba ficando difícil o diálogo com dirigentes e atletas. O frio é outra coisa que atrapalha muito, porque estamos acostumados no clima tropical e acredito que isso seja o mais complicado.

Voltando à tua passagem por Portugal. Quando ingressaste na AAUTAD/Realfut, já sabias que iria ser bilhete com retorno para Ourense no final da época de empréstimo?

Sim, sabia que seria dessa forma, já que tinha ainda contrato com o clube espanhol, era inevitável o meu retorno.

Nunca te passou pela cabeça ficar mais um ano e representares o mesmo clube na 1ª divisão?

Sim, gostaria de ter feito parte do time que disputou a 1ª Divisao, mas por problemas de contratos e negociacões de salário ficou dificil continuar em Portugal, um pecado realmente.

De todos os títulos que conquistaste e do teu magnífico desempenho, qual foi para ti a melhor época desportiva?

Acredito que todos os títulos são importantes, não consigo colocar qual foi o mais importante. Todos têm o seu valor dentro de cada ano, mas o da AAUTAD foi bem marcante, já que não era uma equipa profissional e ganhamos muito bem o campeonato, com 6 jornadas de antecedência.

Apesar dos teus bons desempenhos por terras transalpinas, sei que Portugal está sempre no teu horizonte. Existe vontade de voltar, ou achas que agora, com 38 anos, será um pouco tarde para isso?

Agora já é mais complicado pensar em voltar, porque estou com 39 anos quase encerrando minha carreira como jogador. Mas nunca se sabe, se aparecesse uma proposta pensaria com muito carinho.

Tens, sem dúvida, uma carreira ligada a Itália. A aposta do Rhibo Fossano no futsal tem-se revelado magnífica?

Está sendo uma boa experiência, já que a equipe é jovem. Sou o mais velho da equipe e estou ajudando o treinador no crescimento de todos estes jovens. Jogamos um campeonato difícil, mas os jovens estão encarando bem essa aventura.

Os adeptos em Itália, como são eles no futsal?

Aqui na Itália tem muitos seguidores, muita gente acompanha o futsal. Por exemplo, quando jogamos em casa a média de público é de 700 pessoas e isso é sempre um incentivo a mais para nós jogadores.

Amigo Gallati, o que te diz o futuro: continuar a jogar, ou pendurar as sapatilhas e treinar?

Pretendo jogar por mais 2 ou 3 anos e depois seguir a carreira como treinador, já que com a formação de educação física mais a minha experiência como jogador, posso obter bons resultados no futuro.

Amigo Gallati, deixas-te algo por dizer que não tenhas referido nas questões anteriores?

Acredito que falamos de toda minha carreira, gostaria só de deixar algumas palavras, primeiro agradecer a Deus por tudo na minha vida, porque sem ele sei que nada disso seria possível. Depois queria agradecer-te a ti por me dares esta oportunidade de falar sobre a minha carreira no futsal. Um grande abraço amigo Parente.

 

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