Gonçalo Novais: Diretor Desportivo do CCD Lobrigos

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Desta vez, o entrevistado para o Desportivo Transmontano é Gonçalo Novais, Diretor Desportivo do CCD Lobrigos, equipa que milita pela primeira vez no Campeonato Distrital de Futsal da AFVR. Um Diretor com o “bichinho” de Treinador, que voltou às suas raízes para tentar o sonho de ver novamente uma equipa transmontana na 1ª Divisão. Alguém que fez das suas fraquezas forças, que vem eliminando cada vez mais as diferenças existenciais sócio culturais e desportivas na sociedade atual e, que segue bem à risca o lema de : “Todos Diferentes, Todos Iguais”.

Gonçalo, mais um aluno formado na UTAD no mundo do Futsal. Foi um mundo que sempre te fascinou?

Foi uma modalidade com que eu sempre simpatizei, desde muito jovem, quando via as primeiras transmissões televisivas, e principalmente quando entraram Benfica e Sporting na 1ª Divisão. Apesar de ter tido algumas dificuldades para entender taticamente a modalidade no início, dada a velocidade com que se fazem as transições ofensivas e defensivas, acabei por ir captando a essência do jogo. Para que eu me afeiçoasse e apaixonasse em definitivo pelo futsal, muito contribuíram as subidas do Boticas e da AAUTAD/RealFut à 1ª Divisão, equipas que sempre acompanhei bem de perto. Mais do que terem dado a conhecer ao país grandes jogadores e treinadores, e de terem engrandecido a nossa região de Trás-os-Montes e Alto Douro, estes dois clubes contribuíram para fazer nascer em muitos jovens o “bichinho” do futsal, entre os quais eu. Apesar da inexplicável desistência destes projetos, a paixão pelo futsal nasceu e cresceu. E um dia será essa paixão que colocará uma equipa transmontana na 1ª Divisão, como acredito que vai acontecer.

Começaste num grande (FC Porto), mas no Futsal adaptado. Fala-me das tuas conquistas relacionadas com esse grande clube. Conquistas sobretudo de vitórias e boas exibições, não de títulos, de primeiros lugares propriamente ditos. No Campeonato Nacional de Futsal Adaptado, após um começo com alguns deslizes, terminamos num nível muito bom, num terceiro lugar onde fica a ideia que teríamos qualidade para algo mais… Depois no Campeonato de Portugal de Futsal Adaptado ficamo-nos pelas meias-finais, apesar de um jogo de enorme qualidade onde apenas pecámos por não termos concretizado as nossas oportunidades. Trabalhei também no futebol de 7, e aí cheguei ao 2º lugar, e apesar de ter sido a melhor posição conquistada, foi a que mais insatisfação me trouxe. Analisando a qualidade de todas as equipas envolvidas, o Futebol Clube do Porto foi a equipa que mais qualidade coletiva e individual demonstrou. Ainda assim acabamos em segundo a dois pontos do primeiro… Paciência, é preciso trabalhar e melhorar para que o primeiro seja uma realidade da próxima vez.

A tua não continuidade no FC Porto, mesmo depois de conquistados alguns troféus, deveu-se a quê?

Antes de mais, e falando de troféus, gostaria de sublinhar que o maior troféu que conquistei foi em primeiro lugar ter sido abençoado com desportistas de alto nível, rapazes pelos quais tenho hoje um carinho enorme, e com os quais adorei trabalhar. Outro troféu foi ter trabalhado com um grande senhor do desporto adaptado nacional, um mestre, de nome Joaquim Hernâni Dias, um profissional e ser humano de top… No entanto, e apesar da grande qualidade que apresenta, a Secção de Desporto Adaptado é em larga escala uma secção amadora, e essa foi a razão pela qual não consegui permanecer, pois a continuidade no FCP esteve sempre em cima da mesa. Mas a crise que atravessamos não permite que certas modalidades sejam suficientemente financiadas para que possam existir profissionais a tempo inteiro nas mesmas.

Sentiste algum tipo de injustiça perante essas situações?

Injustiça não. Sou muito sincero neste ponto: a única coisa que me entristece foi não ter condições, principalmente na minha vida pessoal, que me permitissem, mesmo de forma gratuita ou semiprofissional, ter conseguido erguer o troféu de campeão nacional ao serviço do clube do meu coração. Se eu tivesse reunido condições na minha vida particular que me permitissem dedicar o meu trabalho ao serviço do Futebol Clube do Porto, não hesitaria um único segundo em continuar, até porque a Direção queria que eu continuasse. E eu tenho a certeza que seria hoje campeão pelo Futebol Clube do Porto. Injustiçado? Digo antes agradecido! Antes de entrar no FCP como estagiário, era adepto e sócio do clube, e gostava do clube. Hoje eu amo aquele clube, e tudo o que aquele clube fez por mim e pelo meu crescimento enquanto pessoa e treinador.

Ou aposta do FC Porto passava por outros quadrantes?

O futebol é o desporto-rei dentro daquele clube, e a aposta vai muito canalizada para o mesmo, porque apesar das despesas do futebol, também as grandes receitas para o clube provêm dali. Além disso, a esmagadora maioria dos adeptos portistas identificam-se enormemente com a equipa de futebol, e nem tanto com as outras… Se bem que eu acho que existem condições de sobra para o futsal não-adaptado começar a fazer parte da estrutura do clube. O FCP podia ter uma grande equipa de futsal se quisesse. Mas para já creio que o futebol continuará a ocupar lugar de destaque dentro daquela estrutura.

És uma pessoa que, apesar da tua deficiência motora, não tens problemas em quereres assumir-te como um Treinador de Elite do Futsal. Sentes que a tua entrada nesta nova fase da tua vida foi um pouco tardia?

Acho que até entrei mais cedo do que pensava na minha carreira de treinador, e tenho necessidade e vontade de, antes de investir desde já numa carreira a solo, trabalhar de perto com outros treinadores que sejam referências de qualidade no futsal nacional. E na nossa região temos enormes treinadores com os quais eu adoraria trabalhar como adjunto, ou mesmo numa função mais de coordenação técnica. Acho que, se me derem as condições que entendo serem necessárias para liderar uma estrutura diretiva de gente esforçada e com alguns conhecimentos, serei capaz de, em contexto de 3ª Divisão Nacional ou Distritais, de fazer épocas de enorme qualidade, eventualmente com subidas de divisão. Para chegar mais longe do que isso, quero trabalhar de perto com excelentes treinadores das duas divisões nacionais. Seria muito enriquecedor para mim, e a decisão mais acertada, pois até gostaria de fazer da profissão de treinador um estilo de vida.

Eu, opinião pessoal, sei que, independentemente da idade, de ser portador de alguma deficiência ou não, todos têm o seu lugar no Futsal. Mas tudo, ou quase tudo irá depender do valor de cada um. E para mim, tens um enorme valor dentro de ti, valor esse que o podes transmitir aos teus jogadores, para que eles, independentemente das adversidades, saibam que existe sempre a esperança de conquistar algo, não achas?

Antes de mais, obrigado por essas palavras muito elogiosas! Respondendo à questão, e falando até num aspeto particular da minha pessoa (ser um treinador portador de uma deficiência motora), acho que aquilo que tento transmitir, nas poucas vezes em que me refiro ao fato de eu próprio ter que ultrapassar várias barreiras e preconceitos que se foram instalando no meu caminho, é de que o valor que cada um dos meus atletas têm enquanto ser humano pode ajudá-los, e de que maneira, a ultrapassar barreiras imensamente difíceis de transpor. Todos os meus atletas, sem exceção, sabem que se quiserem realizar-se enquanto desportistas vão ter que ultrapassar, a dadas alturas, barreiras muito difíceis de ultrapassar, e vão ter de superar muitas desconfianças em relação ao seu respetivo valor. Desporto é superação! É ser capaz de tornar possível o impossível! É não desistir nem desanimar mesmo quando as coisas não correm tão bem ou nada bem! É ter a coragem de dizer que se quer alcançar alguma coisa, e lutar para o conseguir! Queremos uma vitória? Vamos lutar por ela! Queremos ser campeões? Vamos lutar por isso, vamos mostrar que têm de contar connosco nessa luta! Em suma, em conjunto com muitas outras coisas necessárias para o sucesso, a superação e a capacidade de entrega à luta pelo alcance de objetivos são ingredientes demonstrados pela minha própria história de vida, que me obrigou a ultrapassar muitos preconceitos e barreiras para conseguir o que quero. É isso que gosto de transmitir e ver nos meus atletas também.

Aliás, tu em relação a muitos treinadores tens uma vantagem, além de treinares, podes funcionar como um psicólogo devido à tua licenciatura em Psicologia. Achas que as duas situações se conjugam na modalidade, poderes ser treinador e psicólogo ao mesmo tempo?

O treinador é mesmo obrigado a ser psicólogo, se quiser ter sucesso na sua carreira. O que a licenciatura em Psicologia me deu foi todo um conjunto de conhecimentos e competências que melhoraram e muito a minha forma de gerir pessoas, dentro de uma organização coletiva, de um modelo de jogo, de uma estrutura diretiva, que se pretende que seja subordinada não apenas a uma ideia e a uma filosofia de jogo e de trabalho, como também a uma visão estratégica que se pretenda alcançar no clube em que nos encontramos. O que quero dizer com isto é que, para além de um conhecimento aprofundado do jogo, o treinador deve saber gerir, da melhor maneira possível, todo um conjunto de seres humanos, com interesses, motivações, contextos de vida e objetivos bem distintos. Um grande erro que muitos treinadores cometem é quererem tratar todos por igual, e agirem de uma forma pré-definida em cada situação. Em Psicologia aprendi duas coisas fundamentais: a primeira foi que cada ser humano tem valor e potencialidades que podem e devem ser exploradas, devendo nós aceitar trabalhar com a pessoa conforme ela é, e sem querer formatá-la, conduzi-la à potenciação das suas capacidades; a segunda foi a importância de se ser flexível quando estamos a liderar pessoas, pois devemos ajustar todo o nosso trabalho de tal maneira que possamos ter um discurso e uma filosofia de treino e trabalho comum, que no entanto se ajuste às motivações e interesses individuais, de tal maneira que o treinador seja capaz de construir uma identidade coletiva para a equipa, mas que permita aos jogadores sentirem que os seus objetivos, interesses, e mesmo opiniões sejam salvaguardadas nesse processo.

Sais do FC Porto e regressas à tua terra natal, Santa Marta de Penaguião. Foi uma aposta pessoal ou uma conjugação de vontades?

Foi a decisão que me pareceu mais acertada na altura. Não tendo eu, como já referi, condições que me permitissem continuar no Porto, regressei a uma terra que considero, sem grande dúvida, uma terra de oportunidades completamente inexploradas, e é justamente nisso que reside a grande motivação de trabalhar neste concelho: a possibilidade de fazer de Santa Marta de Penaguião um concelho desportivo de referência no distrito.

Começas pelo futsal feminino do Real de Penaguião. Foi uma aposta certa?

Foi uma forma de aprender como funciona o desporto neste concelho. Apesar de ter ficado lá apenas três semanas, chegou para perceber que havia uma grande divergência entre aquilo que eu acharia e acho que devia ser o projeto de desenvolvimento do futsal feminino, e aquilo que alguns elementos da Direção queriam que fosse. E acho que, apesar de ainda ser um treinador muito jovem e a precisar de aprender muito, já tenho uma história académica e desportiva que faz com que tenha o direito de não aceitar que haja pessoas que tentem, de forma deliberada ou não, desvirtuar a forma como trabalho com uma equipa. O meu método de trabalho não é melhor nem pior do que nenhum outro, mas é pura e simplesmente o meu, e se estou a treinar e/ou a liderar uma estrutura, há uma visão que pretendo alcançar, e para a qual trabalho. Visão essa que nunca é imposta, mas sim debatida. Antes de trabalhar com as jogadoras, falei com elas a fim de as conhecer, saber o que as motivava, porque estavam ali, quais as suas expectativas, etc.. Com base nisso, iniciei o meu trabalho, só que houve situações em que senti que a minha filosofia estava a ser desvirtuada, e optei por, mantendo a amizade que sinto pelas pessoas do Real, sair do clube, pois não estavam reunidas condições que eu considerava essenciais para trabalhar com qualidade.

Para alguém, embora neste mundo do futsal há pouco tempo, sentiste que por vezes a nossa força e vontade de mudar as coisas, pode não chegar se encontrares pelo meio alguém disposto a não seguir a tua linha de raciocínio e de execução de projetos?

Senti, e vai-se sentindo sempre. Mas os piores nem são esses, pois quando há divergências que se manifestam, essas divergências são debatidas em tempo útil. Os piores são aqueles que pela frente dizem que “sim” a tudo, e que depois, quando vamos dar conta, estão a criar um “ruído de fundo” que, se não for abafado a tempo, começa a fazer-se ouvir cada vez mais e melhor, e que vai estragando o que se pretende fazer. Há dirigentes desportivos que têm problemas em saber qual o lugar que ocupam, e gostam de mandar as suas “postas de pescada” pelo ar, permita-me a expressão. Esses é que são perigosos, pois à nossa frente concordam com tudo o que digamos, e por trás discordam. Trabalhar em estruturas dessas com esse tipo de pessoas é que é complicado.

Organizaste um Seminário, no qual eu infelizmente não pude estar presente, mas cujo convite muito me honrou. Em relação a esse seminário, achas que as pessoas envolventes e afetas à modalidade se interessaram pelo mesmo?

Acho que teve o seu impacto, que poderia ter sido maior, é certo, mas ainda assim foi o suficiente para que o evento fosse considerado um sucesso, ao ponto de se estar a projetar a possibilidade de se organizarem mais Seminários, em moldes diferentes talvez, mas sempre com a fasquia do primeiro. Uma coisa é certa: a qualidade dos preletores e a competência dos mesmos foi de tal ordem que ainda hoje muita gente se questiona acerca de como foi possível conseguir trazer grandes treinadores, pensadores e cientistas do desporto a um evento em Santa Marta de Penaguião. Mas conseguimo-lo, e o interesse pela modalidade aumentou, ao ponto de se ter criado um projeto de futsal a partir desse Seminário: o Centro Cultural e Desportivo de Lobrigos.

Ano novo, projeto novo. Equipa sénior masculina do CCD Lobrigos, a militar no campeonato distrital de futsal da AFVR. Mesmo sem resultados neste primeiro ano, sentes que o projeto tem pernas para andar?

Quanto a este projeto, do qual sou dirigente desportivo, vou expressar em poucas palavras aquilo que norteia o funcionamento e a concretização deste projeto: queremos subir à 2ª Divisão Nacional! A reformulação dos quadros competitivos levada a cabo pela FPF no futsal, aliada ao grande interesse que as pessoas têm vindo a demonstrar pelo futsal, leva-me a dizer com clareza que este projeto tem pernas para andar, e de que maneira, assim o CCD Lobrigos saiba galvanizar e mobilizar a população do concelho de Santa Marta, no sentido não apenas de encher o Pavilhão, como de “trazer” até nós miúdos, rapazes e homens que se queiram mobilizar em prol dessa visão que se vai alcançar. É certo que ainda há muito saudosismo em relação ao futebol de 11, há muita gente que parece não ver que a taxa de natalidade no nosso concelho vai colocar em causa a sustentabilidade do futebol de 11 a curtíssimo prazo, há gente que parece não ver até onde Tabuaço está a chegar no futsal, até onde o Sp. Lamego está a chegar no futsal, até onde os Amigos Abeira Douro chegaram. Se estes chegaram, nós também seremos capazes de chegar! E chegaremos, com muito trabalho, suor e dedicação, mas chegaremos! Agora há que ter a noção que vai demorar o seu tempo, pois os nossos rapazes, apesar do muito talento que têm, não têm culpa de ter vivido num concelho no qual apenas em 2013 se começa a trabalhar a sério no futsal. Infelizmente, há um atraso em relação a outros concelhos que tem de ser inicialmente ultrapassado. E vai sê-lo, dado o talento, e acima de tudo, o caráter demonstrado pelos grandes e jovens jogadores que tem o CCD Lobrigos. É esse talento e o caráter dos atletas que me levam a acreditar que a muito breve prazo o futuro desta equipa será muito risonho!

Amigo Gonçalo, deixaste algo por dizer que não o tenhas referido nas questões anteriores?

Quero expressar a minha gratidão por esta atenção dedicada à minha pessoa, e incentivar-vos a dar continuidade ao vosso excelente trabalho de promoção do desporto regional! Parabéns, Desportivo Transmontano, pelo excelente trabalho feito!

Entrevista conduzida por Fernando Parente, responsável pela secção de Futsal do Desportivo Transmontano.

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