Por: Gonçalo Novais

É indiscutível que as coisas não correm bem para os lados de Stamford Bridge.

A equipa campeã inglesa em título está praticamente afastada da luta pela renovação dos seus pergaminhos de campeã (vai no 15º lugar, já a 14 pontos dos líderes Manchester City e Arsenal), vai cumprindo os serviços mínimos na Champions, já foi eliminada da Taça da Liga, e arrancou a época oficial com a perda da CommunityShield para o Arsenal.

Estes insucessos desportivos têm como base problemas exibicionais da própria equipa a vários níveis. Em termos defensivos, a equipa aparece particularmente vulnerável no sector mais recuado da sua equipa, normalmente o quarteto defensivo. É uma equipa em que os defesas-laterais se têm manifestado particularmente vulneráveis defensivamente, tendo grande dificuldade em conter investidas ofensivas dos adversários pelos flancos – esta situação, longe de ser relativa apenas a um ou outro jogador em particular, tem-se revelado um problema permanente, independentemente de nas laterais se utilizarem Ivanovic, Azpilicueta ou o jovem ganês Baba Rahman, frequentemente utilizado a lateral-esquerdo, ele que na época passada jogava na Bundesliga, no Augsburgo. Outro problema defensivo particularmente urgente de resolver refere-se à dificuldade que os centrais do Chelsea têm de neutralizar situações de perigo promovidas pela mobilidade e aproveitamento de espaços ofensivos por parte de avançados-centro com maior mobilidade, que pelo seu estilo de jogo são promotores de um processo ofensivo mais criativo e imprevisível, recheado de combinações tácticas geradoras de vários desequilíbrios nas organizações colectivas defensivas do Chelsea, ou de qualquer outra defesa da qual estejamos a falar – a título de exemplo deste problema defensivo particular, chamo a atenção para o «hat-trick» de Naismith do Everton frente ao Chelsea, no qual este jogador escocês, jogando parte do jogo a médio-ofensivo (na zona central ou descaindo sobre os dois vértices laterais do losango de meio-campo do Everton neste jogo), e outra parte a avançado-centro, usufruiu sempre de uma significativa liberdade de acção e execução nos seus movimentos de desmarcação rumo à grande-área dos londrinos.

Em termos ofensivos, mais do que alguma falta de fluidez no processo ofensivo da equipa, o Chelsea perdeu aquela que, a meu ver, era uma grande arma de que dispunha para ganhar jogos de elevado grau de dificuldade, que era a capacidade de manutenção da posse de bola e de circulação da mesma durante longos períodos de tempo no jogo, o que não só permitia gerir o esforço mantendo a posse de bola e desgastando o adversário por via das movimentações defensivas, como promovia algo muito importante, que era ainda a imposição de uma intensidade de jogo consentânea com os interesses da equipa, uma vez que a posse de bola dotava os «blues» da iniciativa de impor a intensidade de jogo que pretendessem.

Todas estas valências e competências, toda esta mestria ao nível do domínio dos vários aspectos do jogo manifestados por qualquer jogador e equipa de um alto nível de rendimento desportivo como a do Chelsea, demoram imenso tempo a adquirir. Com pouquíssimas ou praticamente nenhumas excepções, qualquer jogador que ambicione chegar a um clube que participe em provas de grande exigência competitiva como uma Liga dos Campeões ou uma PremierLeague inglesa atravessou seguramente um longo e exigente período de formação desportiva, no qual certamente se despenderam milhares de horas de treino acumuladas ao longo de mais de uma dezena de anos de prática desportiva nas camadas jovens, e nas quais os diferentes jogadores deverão ter tido imensas horas de contacto e de trabalho com reputados treinadores desportivos, com uma sólida bagagem teórica, metodológica e de vivências práticas sobre o jogo (isto no caso, principalmente, dos treinadores que foram jogadores).

Da mesma forma, ser treinador de uma equipa como o Chelsea, e ser ainda para mais um treinador competente como José Mourinho o é, não é algo que caia do céu. Bem pelo contrário! Os resultados e performances das equipas de José Mourinho funcionam como indicadores consistentes de uma capacidade de liderança que se foi construindo ao longo de muitos longos anos não apenas de convívio com bons operacionalizadores de princípios e sub-princípios de jogo como Bobby Robson ou Louis Van Gaal, como também de contacto com eminentes teóricos com robusta formação teórica, metodológica e filosófica como os professores Vítor Frade ou Manuel Sérgio, isto a somar aos anos de experiência e de reflexão sistemática sobre os anos de trabalho que vai acumulando e vivenciando.

Tudo isto para dizer que, por muitos defeitos e imperfeições que possam ser apontados legitimamente à forma como o Chelsea vai jogando esta temporada, o plantel e equipa técnica deste clube são dotados de um grande número de profissionais do futebol e do desporto altamente capacitados do ponto de vista da execução das respectivas tarefas e funções. Profissionais esses que são do mais competente que se pode encontrar. E quando se fala de competência, deve-se falar igualmente da competência indiscutível de uma equipa técnica que tem elementos que já conquistaram não apenas títulos europeus, como também títulos nacionais por praticamente todos os países por onde passaram, como Portugal, Inglaterra, Espanha ou Itália.

No futebol, tal como na vida, independentemente do nosso nível de competência ao nível da adaptação às adversidades do nosso percurso existencial, devemos ter presente que, por muito competentes que sejamos como treinadores, dirigentes ou jogadores, os momentos de crise são inevitáveis. E é também nesses momentos de crise que se vê, por um lado, a capacidade que as lideranças das estruturas desportivas têm de manifestar empatia e apoio forte e solidário a profissionais que, dotados de indiscutível competência, também erram, são imperfeitos e nem sempre conseguem produzir um trabalho ao nível daquilo que seria pretendido. Os líderes das estruturas desportivas, além de terem bem presente a competência e a qualidade dos seus recursos humanos, devem tentar colocar-se, tanto quanto possível, no lugar de técnicos e jogadores, e tentar entender que aspectos conjunturais ou estruturais estão a bloquear a capacidade performativa de um colectivo, como o do Chelsea, que tem potencial futebolístico suficiente para exibir um rendimento de qualidade bastante superior ao evidenciado. Por outro lado, e isto na minha óptica, é conveniente que os responsáveis directivos do Chelsea tenham o bom senso de considerar que estão na presença de todo um conjunto de jogadores e técnicos que foram destacadamente campeões ingleses na temporada transacta, com uma vantagem pontual relevante sobre os seus mais directos opositores.

É que independentemente dos altos e baixos que um treinador desportivo tenha no seu percurso em termos de resultados desportivos, as crises e os momentos menos bons constituem-se como excelentes oportunidades conferidas ao treinador no sentido de este perceber quais as razões que estão na base desta inesperada sequência negativa de resultados. As crises podem, resumidamente, promover o crescimento e o desenvolvimento de competências do treinador que até podem promover significativas melhorias na qualidade do trabalho que faz.

Porque a qualidade de José Mourinho está lá, bem como da equipa que ele treina. Porque todo este conjunto de pessoas não “desaprendeu” de uma época para a outra. Porque é nos momentos difíceis de um conjunto de excelentes profissionais que a Direcção de um clube deve dar tempo e espaço para que o colectivo dê a volta à situação, saindo mais forte de uma situação de crise que será transitória. Porque é escusado adicionar à instabilidade e às perturbações emocionais e motivacionais derivadas de resultados menos bons, uma outra instabilidade associada à interrupção de um processo de trabalho que pode não ser a única explicação para o insucesso da equipa.

Da mesma forma que a qualidade dos profissionais está lá, e é reconhecida, o insucesso da equipa em certos jogos e competições também se encontra plasmado nos resultados e exibições obtidos. Mas é precisamente nestas alturas que não só devemos criar condições de trabalho estáveis, no sentido de proteger emocionalmente todos os elementos da estrutura que lideramos, como recorrer a excelentes profissionais para ultrapassar as situações de crise vividas. José Mourinho é um desses profissionais. É por isso que o seu despedimento não faria o menor sentido!

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