Colômbia 2016 – Mundial de Futsal

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Escrevo este artigo de opinião dois dias após o jogo das meias-finais entre a nossa Seleção e a Argentina. Ambiciono, como adepto, ex-jogador e treinador da modalidade, tal como toda a estrutura presente na Colômbia e grande parte dos 11 milhões de adeptos que apregoamos ser desde o Europeu de Futebol de 11 que, “do mal o menos”, venha o bronze para Portugal. É legítimo sonhar, é legítimo crer, ambicionar e ser determinados a conquistar essa medalha. Não para igualar o feito de há 16 anos atrás na Guatemala, mas sim para vocês, que tantos sacrifícios têm feito, conseguirem escrever a vossa história a nível de Seleção.

É fácil falar e emitir uma opinião depois dos resultados inesperados acontecerem. Existe sempre alguém que nunca estará de acordo com o selecionador, se é a pessoa certa, se é competente, etc…

Existirá sempre alguém que irá, caso os resultados teimem em aparecer neste tipo de eventos, duvidar das escolhas do selecionador e, acredito piamente, que na maior parte dos 11 milhões de adeptos, todos eles terão um ou outro jogador a alterar na convocatória realizada para este mundial. Estamos, como bons portugueses, habituados à crítica fácil.

Quando, após o último Portugal x Argentina, o selecionador nacional Jorge Braz disse que “erros próprios conduziram à derrota”, muitos não terão percebido o verdadeiro alcance desta mensagem. Nem terão percebido que disso depende, em grande percentagem, do sucesso ou insucesso do futsal português nos próximos anos.

Pode-se obrigar a que as equipas dos nacionais tenham “x” equipas na formação, pode-se realizar “n” eventos com as seleções distritais, podemos fomentar cada vez mais seleções jovens com miúdos que nunca sonharam lá chegar, podemos fazer tudo e muito mais, mas se não olharmos bem para dentro, se não identificarmos o verdadeiro problema existente na Liga Sportzone, na 2ª Divisão Nacional e continuarmos assobiar para o lado, mais resultados destes irão aparecer a nível internacional.

E a culpa aí não é de ninguém, ou seja, não será da estrutura presente nesses eventos: equipa técnica, jogadores, staff, etc…, mas sim de quem decide e não deixa que o nosso futsal a nível nacional evolua para outros patamares.

E aqui sim, aqui falo de se trabalhar com excelência na formação, não de se trabalhar bem ou muito bem, mas sim procurar atingir patamares de excelência que permitam aos jovens ser opções válidas aquando da sua fase de transição de júnior ou sub-20 para as equipas seniores, para não existir a recorrente ideia de que quem vem de fora é que é bom.

É imperioso investir em campeonatos mais competitivos: num campeonato em que não sejam sempre as duas equipas profissionais a disputar os títulos, e num campeonato onde em 68 equipas, não subam apenas duas para a 1ª divisão. Temos novamente de alargar os horizontes, de dar mais oportunidades.

Mas enquanto falamos dos nossos problemas, não reparamos que os outros não param. Que os outros não querem saber do que dizemos, do que nos afeta. Que os outros agem. Enquanto continuamos a ser verdadeiros «experts» em dissertações sobre a galinha do vizinho, não reparamos que os outros não querem saber. Agem.

Continuamos a perder tempo a contar os atletas brasileiros naturalizados das seleções adversárias. Chamamos Brasil B à Itália, Brasil C à Rússia, Brasil D ao Casaquistão e Brasil E ao Azerbeijão, que até inscreveu à pressa 4 ou 5 jogadores brasileiros que nunca jogaram no país que agora representam. E se nós tivéssemos um Divanei, um Deo, um Caio Japa, por exemplo, a representar-nos, seríamos o Brasil F? Se com eles convocados conseguíssemos outros resultados, alguém se iria lembrar que eles são naturalizados? Claro que não, por um lado, porque o que realmente importa, são os resultados obtidos. Mas acredito piamente que por outro lado, irá sempre existir alguém, que mesmo conseguindo os objetivos propostos iria contestar a decisão de termos três jogadores naturalizados. É verdade, está-nos no sangue: seja qual for o motivo, basta não gostarmos da pessoa, criticamos. Mas é esta onda e esta crítica negativa que não leva a modalidade a lado nenhum.

Porque nós neste momento não somos capazes de ver que tanto uma como as outras Federações referenciadas têm vindo a desenvolver, ao longo dos últimos anos, projetos visíveis no futsal jovem. Apesar da inerência para convocar atletas naturalizados que, obviamente dão outra qualidade a nível de jogo dessas seleções, a verdadeira aposta sai da própria competitividade que essas Federações impuseram nos seus países na modalidade a nível da formação. Mais e melhor formação, mais competitividade, melhores resultados.

Não castrar o atleta nascido e criado no próprio País. Quanto às naturalizações, por vezes são necessárias, outras vezes não. A mim, agrada-me e muito a ideia de potenciarmos o jogador português, e isso a Seleção tem feito. O que falta fazer e é notório é trabalhar as bases (seleções distritais) duma forma mais abrangente para que o fosso entre uma seleção distrital e a forma que se trabalha numa seleção nacional, seja na formação ou na sénior, não seja tão diferenciado.

Falta também um trabalho mais profícuo relacionado com as competições distritais. Ir ao fundo do poço, ao verdadeiro problema. É notória a falta de competitividade em alguns campeonatos distritais, mormente no interior do país. Falta á própria FPF ter a noção da realidade de cada associação distrital.

Estas lacunas são para mim, a base do sucesso ou insucesso, quer nos clubes, quer nas seleções distritais e, como também vimos há dois dias atrás, da nossa Seleção Nacional.

Hoje e após mais esse desaire é fácil para pedir cabeças, solicitar demissões, dar exemplos de Treinadores que podem dar títulos, que podem ter outras opções a nível de jogadores convocados, que podem fazer regressar os “proscritos” por este Selecionador, etc…, pois tudo serve para conseguirmos os nossos intentos.

Eu, neste caso, continuo com a minha humilde opinião, dentro daquilo que a mesma vale.

Jorge Brás é o homem certo no lugar certo. É uma pessoa e um Treinador competente, responsável, comprometido a todos os níveis com a FPF e com as próprias seleções nacionais, bem como com as seleções universitárias e com todas as capacidades a nível do conhecimento, quer teórico, quer prático, do que é a nossa modalidade. Goste-se ou não, a verdade é essa.

Temos pela frente decisões que se adivinham duras, mas que podem ser tomadas e mudar de vez, e para melhor, penso eu, a face da modalidade que tanto gostamos. Temos pela frente a hipótese de escrevermos uma outra história, não repetida e, de construirmos o nosso caminho respeitando e fazendo respeitar a nossa identidade, que é o que o nosso Selecionador e Seleção têm feito. Temos pela frente a hipótese de semear um futuro melhor a nível de clubes, de seleções distritais e porventura das seleções nacionais, se não quisermos que só o nosso futuro seja bom. Se percebermos que os outros podem conseguir ver o que não vemos. Que os outros podem ter soluções para os nossos problemas e que nós podemos ter soluções para os problemas dos outros, mesmo connosco não querendo ou não objetivando essas soluções. Temos pela frente a hipótese de ser melhores. Não porque os outros sejam maus, mas pelo crescimento de todos, pela evolução da nossa modalidade.

Temos esse dever e essa obrigação.

Pelo crescimento e evolução do Futsal.

Fernando Parente (Treinador de Futsal)

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