Por: Fernando Parente

Em primeiro de tudo, OBRIGADO. Obrigado Jorge Braz, obrigado equipa técnica e staff, obrigado jogadores, obrigado Portugal, OBRIGADO FUTSAL.

Seria este o passo que faltava para a modalidade ser vista com outros olhos por quem manda e decide? A ver vamos.

O importante é que, com esta conquista, se deu um passo enorme.

E, num momento em que muita gente (mesmo aquela que não vê nem segue a modalidade), se fartaram de parabenizar a nossa seleção, o nosso selecionador e, claro está, os nossos jogadores, venho mais uma vez por o dedo na ferida. Mas primeiro passemos aos fatos:

A herança era pesada: Guatemala 2000, Hungria 2010 e a supra organização do europeu em Gondomar era um fardo que a seleção/federação sempre carregou.

Jorge Braz, para alguns (minoria), nunca devia ter sido o sucessor de Orlando Duarte. Bastava uns resultados menos bons e os críticos apareciam logo. Os jogadores convocados, desde que assumiu a Seleção, sempre foram alvo de críticas, o normal no num país que só sabe criticar quando algo não corre bem e, bajular, quando as coisas correm de maneira diferente.

Para muitos, agora, este título deve-se a muita gente: todos tentam tirar o seu pedaço de fama. Ora porque treinei este e aquele, ora porque fui treinado por, ora porque aquele jogador jogou neste e naquele clube. Também poderia ser mais um a juntar-me a essa malta, a dizer que fui treinado por, que “bebi” do que aprendi nos anos x e y com…, mas para quê?

O certo é que o valor desta conquista é de quem lá esteve e de quem trabalhou para conseguir este feito. O valor desta conquista apenas se deve ao Selecionador, adjuntos, restante staff e jogadores. Pelo menos foi a primeira vez em que não senti a clubite dentro da Seleção. Foram todos um.

É óbvio que, como português e como membro da família futsal (ex-jogador e atual treinador), me sinto orgulhoso pelo título. Mau era se não me sentisse. Agora, querer ir buscar importância onde não a tive….

Mas o certo é que tudo é muito bonito, somos campeões europeus de seleções, mas, e agora Portugal?

Não será a hora de repensar o nosso futsal?

Agora que conseguimos esta enorme vitória, não será hora de olhar para dentro e retificar o que está mal?

E digo isto porque numa das entrevistas que li do Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ele disse algo como: “isto foi uma vitória do Plano Estratégico para o Futsal”. A sério Sr. Presidente?

Se me disser que o PEF 2012 tinha como objetivo a criação de seleções jovens, vá que não vá.

Se me disser que o PEF 2012 tinha como outro objetivo não naturalizar jogadores estrangeiros, aí ainda aceito.

Agora, que foi uma vitória do “Plano Estratégico para o Futsal”, onde? Diga-me apenas onde, que eu não consigo descortinar essa sua visão. Ou está a dizer isso porque acabamos de conquistar o europeu e sabe bem rejubilar com algo que prometeram e nunca conseguiram?

Tem uma Liga Sportzone, que continua a ser decidida apenas por dois clubes, os profissionais. Uma Liga Sportzone onde é cada vez mais fácil manter. Isso também aparecia no PEF 2012?

Tem uma 2ª Divisão recheada de muitos e bons valores, mas que nunca são vistos pelos Selecionadores. Tem uma 2ª Divisão que não tem lógica de o ser: um modelo competitivo gasto, sem nexo nem razão de estar em funcionamento. Uma 2º Divisão que precisa de 2ºs, 3ºs e 4ºs classificados dos distritais para que as 6 séries continentais possam ficar completas. Uma 2ª Divisão desajustada para a realidade dos clubes e para a regulamentação da FPF que diz o seguinte: “O agrupamento das séries é elaborado pela FPF e de acordo com a localização geográfica dos clubes”. Diga-me onde está a localização geográfica nas séries desta época desportiva. Equipa da AF Bragança na série do Porto. Equipa da AF Vila Real na série de Aveiro. Equipas da AF Lisboa na série do Algarve. Essas réguas na FPF andam a medir mal.

Uma 2ª Divisão que sobrevive à custa de muitos clubes humildes, mas que com o andar da carruagem e sem modificações, pode vir a pagar uma fatura muita alta a curto/médio prazo. Uma 2ª Divisão que, tal como a Liga Sportzone, não tem lógica de ter ativa a contabilização de cartões amarelos. Quando é que vão reparar que essa medida só prejudica os clubes e a modalidade?

Tem uma 2ª Divisão onde é cada vez mais difícil de subir para a Liga Sportzone. Tem uma 2º Divisão onde é cada vez mais difícil de manter.

Tem Distritais compostos por 6, 7 ou 8 equipas sem qualidade competitiva. Tem Distritais onde uma equipa passeia. Tem Distritais onde os campeões nunca vão subir à 2ª Divisão porque não têm e não querem ter formação. Tem Distritais que vão solicitar o Grau II de Treinador para se poder exercer a atividade nessa realidade. Não estaremos nós, agentes do futsal, a dividir cada vez mais a nossa modalidade com todos estes pressupostos? Tem os Distritais onde agora é mais fácil subir a uma 2ª Divisão Nacional.

Tem campeonatos de formação onde existem clubes com dificuldades para ter 5 jogadores. Tem campeonatos de formação onde os miúdos são formatados (foco é apenas ganhar e por muitos, e nem todos jogam), e não formados para a modalidade.

Tem um campeonato nacional feminino que precisa de ser revisto. Não faz sentido, a meu ver, um campeonato nacional com 2 zonas. Porquê e para quê dividir se depois as vamos juntar.

Será que isto também faz parte do Plano Estratégico para o Futsal, que entrou em vigor em 2012, como referiu o Sr. Presidente da FPF? Não creio.

Por fim, o seu a seu dono: condecorações, atribuição de nome a pavilhões, honoris causa, etc…

Eles merecem, sem dúvida que sim, pois foram os obreiros desta grande conquista.

Mas não se esqueçam que depois da euforia, regressa a realidade.

E é nessa realidade que nos devemos focar, pois um título europeu, por muito bom que seja, não vai mudar aquilo que está mal.

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