Por: Gonçalo Novais

O alargamento de 16 para 24 equipas consumado no actual quadro competitivo do Campeonato da Europa de futebol era potencialmente propício à estreia de selecções que, tendo dificuldades de apuramento nos moldes competitivos anteriores, têm nesta reformulação uma oportunidade para não apenas ganhar experiência competitiva de um nível de rendimento altíssimo, como também de projectar todo um conjunto de jogadores que, para além de alguns jogadores mais consagrados e carismáticos que estas selecções também têm, ainda não tenham uma projecção que vá para além, muitas vezes, dos campeonatos dos seus países de origem ou de campeonatos ligeiramente mais competitivos, embora periféricos, que se situem e disputem nas redondezas.

A Islândia é um desses exemplos, apresentando-se nas suas fileiras com uma grande quantidade de jogadores que, para além de equipas islandesas representativas como o Hafnarfjordur ou o Breidablik, também evoluem em campeonatos de países culturalmente muito associados a este país, como a Noruega, Suécia ou Dinamarca. Numa selecção islandesa praticante de um futebol não muito atractivo do ponto de vista estético, o Campeonato da Europa valerá pela consagração futebolística de alguns experientes jogadores islandeses que, já não tendo muita margem de progressão, atingem neste Europeu um momento marcante nas suas carreiras desportivas. Falo do experiente defesa-central Ragnar Sigurdsson (um central muito simples e objectivo nas suas acções defensivas, muito importante para o melhoramento da eficácia defensiva do Krasnodar), do médio-ofensivo Emil Halfredsson (importante na fase de construção do processo ofensivo da equipa do Verona) ou do veteraníssimo EidurGudjohnsen, actualmente no futebol chinês após uma excelente carreira. À parte este prémio merecido de carreira para alguns destes jogadores, a qualidade do futebol praticado pela selecção islandesa vale sobretudo pela muito competente organização colectiva defensiva, na qual não é nada fácil encontrar espaço gerador de desequilíbrios, e pela capacidade que médios com vocação ofensiva como Sigurdsson têm de projectar a equipa para o ataque, um ataque onde, à excepção do avançado do Nantes Sigtorsson, a capacidade finalizadora da equipa islandesa não nos aparece como muito elevada. Além de ser a primeira participação da Islândia num Europeu, é também a primeira aparição deste país na fase final de uma grande competição internacional, um feito notável para um país de apenas cerca de 320.000 habitantes.

No País de Gales, a comemoração do apuramento para uma fase final de uma competição internacional, que já não acontecia desde o Mundial da Suécia de 1958, acaba por ser um resultado mais do que exigível para um país que deu ao futebol, ainda recentemente, uma grande estrela mundial, RyanGiggs, que embora acompanhado de jogadores como CraigBellamy, Simon Davies, RobbieSavage, John Hartson ou Robert Earnshaw, nunca conseguiu representar a sua selecção na fase final de uma grande competição, o que constitui uma mancha na excelente carreira do actual membro da equipa técnica do Manchester United. Novos bons jogadores aparecem entretanto, e o par do fabuloso extremo/avançado Gareth Bale, sobressai a visão de jogo e excelente qualidade de passe de Aaron Ramsey ou de Andy King, a existência de duas excelentes opções para a ala esquerda da defesa como são Neil Taylor ou Ben Davies (ambos habituais titulares no Swansea e no Tottenham, respectivamente), e a presença de vários defesas-centrais de grande competência técnico-táctica, todos eles de bom nível competitivo, como Ashley Williams (Swansea), Chris Gunter (Reading), James Chester (Hull City) ou James Collins (West Ham). Não se espere desta selecção um jogo de grande beleza estética, até porque o processo ofensivo da equipa parece-me, a meu ver, pouco criativo e com uma falta de fluidez e de capacidade de construção e criação de oportunidades de perigo que aumenta com a ausência de Gareth Bale, que acaba por ser sempre um jogador que pode criar grande perigo a qualquer altura. O processo defensivo dos galeses é claramente o ponto forte da equipa, a ser todavia algo a ser confirmado na fase final do Europeu, já com adversários de maior nível competitivo nos respectivos ataques.

Passados cinco anos de se ter estreado num Mundial, a Eslováquia faz a sua estreia num Europeu em França, levando consigo uma equipa onde o nível de competitividade está assegurado, com a presença de jogadores muito competitivos em várias posições. Na defesa podemos encontrar um lateral-direito muito competente ofensivamente como Pekarik ou três centrais de grande qualidade no plano técnico-táctico no que ao processo defensivo diz respeito, como são os casos de Skrtel (Liverpool), Hubocan (Dínamo de Moscovo) ou o jovem NorbertGyomber (Roma). No meio-campo, o não muito conhecido médio-defensivo do ZilinaViktorPecovsky é o alicerce, o farol orientador de toda uma gama de médios-ofensivos de grande qualidade. Ao já carismático Hamsik (Nápoles), adiciono sobretudo dois centrocampistas eslovacos que muito aprecio, como são JurajKucka (alia a capacidade de recuperação de bolas a meio-campo à competência técnica no drible e progressão com bola com velocidade razoável, além da qualidade no remate de meia-distância, jogando neste momento no AC Milan), Robert Mak (um jogador fabuloso, fortíssimo driblador e autor de cruzamentos rasteiros muito precisos e propícios à criação de excelentes oportunidades de finalização) ou Vladimir Weiss (um jovem talentoso de 25 anos que desportivamente anda perdido pelo Qatar). É de facto no meio-campo e na defesa que os melhores elementos da selecção vão pontificando, pois no ataque os pontas-de-lança com grande competência finalizadora não são muitos, embora Adam Nemec (Willem II) ou MiroslavStoch (extremo do Bursaspor) sejam sempre possuidores de alguma competência no ataque, embora não estejam ao nível de alguns dos colegas de sectores mais recuados.

A crónica segue com a Irlanda do Norte, que pode até defrontar a sua congénere da República da Irlanda no Europeu, caso esta última se apure para a fase final pela via do «play-off». Em larga medida é semelhante ao País de Gales quer na forma como se organiza e funciona defensivamente, quer nas características dos seus jogadores nos sectores mais recuados. O já veterano defesa-central Chris Baird (Derby County) e o ainda mais veterano GarethMcAuley (West BromwichAlbion) foram os centrais mais usados durante a fase de qualificação, apesar de rudimentares do ponto de vista técnico e não propriamente cultos do ponto de vista táctico. Poderão provavelmente ser substituídos por Jonny Evans (West BromwichAlbion) ou CraigCathcart (Watford), que nos últimos jogos vêm assumindo um papel cada vez mais relevante na selecção. Destaque ainda na defesa para o jovem polivalente PaddyMcNair (Manchester United), que aos 21 anos poderá marcar presença na sua primeira fase final de um Europeu, ele que vai lutando por uma afirmação, nada fácil para ele, no plantel comandado por Louis van Gaal. Do meio-campo para a frente, destacar sobretudo a competência na organização do ataque a partir do meio-campo de Chris Brunt (West BromwichAlbion), que também manifesta uma grande competência no transporte de bola para o ataque e no drible, o que faz dele um jogador importante nas transições meio-campo ataque, a enorme inteligência posicional e competência futebolística de um Steven Davis (Southampton) que aparece a um nível altíssimo já algo tarde na sua carreira, e o goleador da selecção, muito inteligente a posicionar-se adequadamente para, aproveitando espaços ou desatenções nas defesas adversárias, finalizar com sucesso, e de nome KyleLafferty, actualmente no plantel do Norwich.

Por fim, destaque ainda para a única selecção que derrotou Portugal na fase de qualificação. A Albânia, graças sobretudo à experiência competitiva adquirida por alguns dos seus jogadores na vizinha Itália (apenas o mar Adriático separa os dois países) e à subsequente melhoria da qualidade dos princípios defensivos do modelo de jogo da selecção, bem patentes nos apenas cinco golos sofridos em oito jogos, vai a França com uma selecção não muito empolgante, mas na qual sempre poderemos apreciar a qualidade do guarda-redes Berisha (Lazio) ou a enorme competência na recuperação de bola e organização do próprio processo ofensivo do melhor jogador albanês da actualidadeLorik Cana, uma grande mais-valia desta selecção.

A estas cinco estreantes sempre se pode adicionar a Bósnia e Herzegovina, que terá ainda de passar pelo «play-off» final.

De referir que em França estarão ainda as selecções da República Checa, Turquia, Bélgica, Espanha, Alemanha, Polónia, Inglaterra, Suíça, Roménia, Áustria, Rússia, Itália, Croácia e Portugal, além da selecção gaulesa na condição de representante do país organizador.

Além da já referida Bósnia e Herzegovina, as selecções da Ucrânia, República da Irlanda, Eslovénia, Hungria, Suécia, Noruega e Dinamarca participarão no «play-off» de apuramento para as quatro restantes vagas, a fim de finalizar a composição do certame que se realizará no próximo ano, em França.

 

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