Por: Fernando Parente

Mais uma época que está a terminar e, mais do mesmo.

Atenções sempre viradas para a Liga Sportzone e supostamente para os únicos clubes profissionais de Portugal. Todos os anos existirá sempre alguém que não esteja de acordo com muito do que se passa e gravita à volta do nosso futsal. Já, por várias vezes, imensas vozes se levantaram contra os modelos competitivos, principalmente da 2ª divisão nacional e de muitos distritais.

Está na hora de algo mudar. Não podemos compactuar mais com essas situações que, de ano para ano, em vez de ajudar a modalidade, estão a degradá-la. Será que as pessoas sentadas no poleiro da FPF não conseguem ver isso, ou o título europeu toldou-lhes a visão?

O certo é que, para além de alguns treinadores, mais ninguém se importa com o estado a que está a chegar o nosso futsal. Há aqueles que ainda têm um pouco de voz, que dizem as verdades em direto, mas depois disso, o que foi feito? Nada, simplesmente nada. Nota-se que muitos agentes da modalidade se reveem nas palavras ditas, através de comentários nas redes sociais, mas depois cai tudo em saco roto. Isto não chateia? Isto não cansa?

Em primeiro lugar, não basta olhar para o vizinho do lado para se conseguir ser como ele. Tem de se trabalhar, tem se partir pedra, tem de se ir contra o estigma criado pelo próprio lobby da modalidade. Porque será que clubes ditos “pequenos” do nosso vizinho aparecem a cada ano mais fortes e a disputar as competições e aqui em Portugal nada.

Aqui, aqueles que tem o mérito de subir à Liga Sportzone, sabem que estão a prazo. Porquê? Simples, as condições nunca são as mesmas. Nem as dos clubes que sobem, nem as dos apoios prometidos que nunca chegam.

Como é que nós queremos uma, duas ligas profissionais, se só temos dois clubes com condições para?

Como é que nós queremos evolução na modalidade, se e quando alguns clubes não profissionais formam e dão a conhecer alguns jogadores, têm a noção que o ou os mesmos mais cedo ou mais tarde vão sair para os clubes ditos profissionais.

E será que depois conseguimos suprir essas saídas? Claro que não, por muito que queiramos, não é fácil suprir as mesmas. Podemos sim, trabalhar com a mesma qualidade e com novos jogadores, mas o trajeto irá ser sempre diferente.

Por isso vemos a grande diferença entre quem tem suporte financeiro e quem não o tem. Apesar da pressão, que acredito que exista, é fácil trabalhar nesses clubes. Trabalhar com os melhores e chegar às fases de decisão é fácil. Depois, na decisão final é que se pode complicar, sobretudo se os intervenientes forem praticamente os mesmos. Basta atentar aos números dos últimos 17 campeonatos nacionais (1ª divisão/liga sportzone). Apenas por cinco vezes e, contando já com esta época, houve um adversário diferente dos dois clubes profissionais: AR Freixieiro na época 2001-02, onde se sagrou campeão (mas que depois e até ao momento tem atravessado o deserto do Saara para se levantar novamente), o Belenenses nas épocas 2007-08 e 2008-09 (finalista vencido, mas que após essas duas finais esteve para acabar), o Fundão na época 2013-14 e o Braga/AAUM na época passada, mas sempre com um dos dois clubes profissionais na disputa. De resto, foi sempre Sporting-Benfica.

Acredito que, em muitos quadrantes, esse seja o jogo nacional do ano na modalidade. Que seja a final da principal competição nacional e que a mesma esteja repleta de profissionais e que mais internacionais dão à nossa seleção, mas pergunto eu, é isto que continuamos a querer para a nossa modalidade?

É bom para os clubes em questão, essa é uma realidade. Mas, e então os outros, que ajudaram a ser a modalidade que é hoje, o que se faz para os ajudar? Simplesmente nada. Basta olhar para as transmissões televisivas e contam-se pelos dedos de uma mão, os jogos em que os intervenientes no mesmo não fosse pelo menos uma das duas equipas profissionais. Vão dizer que é normal, que são os que chamam mais atenção, que são mais apelativos, etc…, mas então porque não fazer logo uma competição entre os mesmos? Se é isso que se quer e os outros existem para inglês ver, façam uma competição apenas e só entre eles.

Pode ser que o share das audiências suba: com jogos feios, com arbitragens condicionadas, com jogadores descontrolados emocionalmente, com constante pressão e coação dos treinadores, dirigentes e suplentes sobre os árbitros e mesa; com constante agressividade dentro da quadra (física e verbal), e com ambiente inflamado nas bancadas pelo ódio que já vem do futebol. É isto que queremos ter no presente e futuro da nossa modalidade?

Mas o pior aparece nas competições restantes, pois tudo aquilo que é permitido na principal liga, não o é nas restantes. E aqui deixo outra questão: os regulamentos não são os mesmos para as competições nacionais? E os das distritais não são regulados pelos mesmos, principalmente a nível disciplinar?

Eu tenho a certeza que sim, mas na prática isso não sucede. Mas aqui alguém tem de intervir para terminar de vez com estas diferenças.

Mas será que há coragem para intervir? Será que há coragem para refletir nos erros criados e poder dar um volte-face aos mesmos?

Quando é que realmente as pessoas que mandam vão parar para ver no que esta maravilhosa modalidade se está a tornar?

Clubes que sobem e no ano a seguir descem; equipas constantemente a desistir e a não querer continuar na 2ª divisão; equipas campeãs e convidadas dos distritais a não querer subir para a 2ª divisão nacional; play-offs nos campeonatos distritais (mesmo para aqueles que só tem 6 ou 7 equipas inscritas);indecisão nas séries da 2ª divisão nacional; a série Açores a sofrer sempre com o mesmo problema; a problemática da diferença na arbitragem entre aquilo que se passa num jogo da liga sportzone e o que se passa na 2ª divisão nacional.

Já fui jogador, sou treinador e sinto-me na condição de expor os problemas do nosso futsal, de os querer debater, de querer o melhor para a modalidade que me acolheu e que eu escolhi em detrimento do futebol. Não pode ser tudo como alguns querem, senão digam-me porque é que os clubes que vou indicar deixaram de querer pertencer a uma modalidade que só tem olhos para dois clubes?

Afinal quem está certo: os que continuaram e continuam a estar nas fases de decisão ou aqueles que não se reveem nas agruras da modalidade e deixaram de participar para apenas não serem mais um?

O que é feito de: Miramar, Alpendorada, Joarte, Instituto D. João V, Famalicense, Fundação Jorge Antunes, AAUTAD, Correio da Manhã, AAC, SC Coimbrões, Bons Dias, Santos Venda Nova, Estrela Amadora, Sporting Pombal, SL Olivais, CF Nogueirense, Foz, Lamas Futsal, Farlab, etc…

E para terminar, o que é feito de tantos treinadores que deram tanto ao futsal e que agora não fazem parte do mesmo? Será que terá sido por vontade dos próprios ou simplesmente afastaram-se porque existe um grande lobby na modalidade da qual simplesmente não querem fazer parte?

Para onde caminhas “meu” Futsal.

 

 

 

 

 

Deixar comentário

Comentário