Afinal não era preciso nascer dez vezes

Por: Gonçalo Novais

No dia 15 de Janeiro de 2014, e no rescaldo da transferência de Matic para o Chelsea, Jorge Jesus faz as seguintes declarações:

“Na formação para render o Matic? Só nascendo dez vezes, mas temos de encontrar soluções. Também acho que no mercado em nenhuma parte do Mundo seríamos capazes de encontrar um substituto para ele. Para mim o Matic é o melhor médio-defensivo do Mundo, é escusado ir à equipa A ou à equipa B, pois é algo que não existe”(in “Record”, 2014).

Passada uma época e meia sensivelmente, existe precisamente um médio-defensivoa jogar no FC Porto, de nome Danilo Pereira, que quer ao serviço do Marítimo na época de 2014/15, quer na presente temporada, vai mostrando um conjunto de características consideradas fundamentais num médio-defensivo de excelência: grande capacidade de recuperação de posse de bola a meio-campo, muito boa qualidade de passe em profundidade que permite o lançamento imediato das suas equipas no ataque, aproveitando eventuais desposicionamentos defensivos dos adversários ainda numa fase de transição desde o processo ofensivo para o processo defensivo, bom posicionamento defensivo, excelente qualidade de desarme e marcação, enfim, um jogador que não só é competente na forma como neutraliza sistematicamente as jogadas de ataque adversárias, como participa activamente na construção e organização do processo ofensivo a partir do meio-campo. Hoje este competentíssimo jogador, formado no Benfica, é hoje aproveitado pelos «dragões», e curiosamente não foram bem precisas dez gerações de futebolistas, ou dez “nascimentos”, para se encontrar nas camadas jovens do Benfica um jogador de excelência para a posição de médio-defensivo, até porque Matic é apenas três anos mais velho do que Danilo Pereira (o sérvio conta 27 anos, enquanto o portista conta 24).

Mas a crónica seria muito curtinha se se falasse apenas deste caso específico, até porque o número de casos concretos de bons futebolistas formados no Benfica desperdiçados pelo clube que os formou é mais extenso.

Começo por um caso flagrante: Bernardo Silva. O jovem médio-ofensivo do Mónaco, claramente um dos futuros grandes craques do futuro, reúne um conjunto de características que fazem dele um atleta capaz de jogar em qualquer equipa do Mundo, e de se adaptar às exigências competitivas das mesmas. Quando ele está em campo, o Mónaco ganha por um lado, em termos defensivos, uma capacidade acrescida de pressionar eficazmente as equipas adversárias quando estas tentam construir e organizar o seu processo ofensivo a partir da sua defesa e meio-campo, levando a uma maior capacidade de os monegascos recuperarem mais frequentemente a bola em zonas mais próximas das balizas adversárias. Em termos ofensivos, a elevada qualidade técnica e velocidade na condução de bola, a excelente qualidade de passe e de drible, e um sentido posicional que o leva, em várias ocasiões, a ficar bem posicionado no sentido de aproveitar espaços para o aproveitamento de grandes oportunidades de finalização, fazem deste jovem um futebolista empolgante que o Benfica poderia bem ter aproveitado.

André Gomes é outro caso de enorme sucesso, cuja qualidade é enorme. Sendo talvez menos voluntarioso na participação no processo defensivo como Bernardo Silva, apresenta uma mestria na execução de passes em profundidade e cruzamentos (seja com o pé direito seja com o esquerdo), aliada a um potente e preciso remate de meia-distância que normalmente executa com o pé direito, e uma velocidade e competência técnica no transporte de bola desde o meio-campo até ao ataque, que fazem dele outro ilustre antigo aluno da academia encarnada.

Que trio de centrocampistas de enorme qualidade que afinal, no imediato, já se encontravam à disposição do Benfica nas suas camadas jovens, e exactamente na altura em que Matic brilhava no clube da Luz. O que significa que não era afinal preciso esperar tanto tempo para encontrar soluções, quer para a posição de médio-defensivo quer para a posição de médio-ofensivo, de enorme valia para a equipa principal.

Mas o bom trabalho realizado pela formação do Benfica não se esgota no meio-campo. Senão vejamos o exemplo do lateral-direito João Cancelo, no qual destaco a enorme qualidade do seu drible e do seu cruzamento, e da inteligência táctica da forma como joga, perfeitamente expressa na forma como se entende quer com os extremos que jogam no lado direito do ataque do Valência, quer com jogadores que ocupem posições mais no centro do terreno de jogo, e que dão linhas de passe mais centrais ao jovem lateral-direito. Graças a esse entrosamento, aliado a uma boa operacionalização dos princípios e sub-princípios do modelo de jogo do processo ofensivo do Valência, não é incomum ver o lateral português a conseguir ora desmarcar adequadamente um colega de equipa pelo flanco direito, ora a conseguir desmarcar-se ele próprio, penetrando nas defesas adversárias até conseguir um posicionamento adequado para a execução de cruzamentos perigosos para as grande-áreas contrárias.

E não esquecer de referir Ivan Cavaleiro, um avançado com uma técnica refinadíssima ao nível do controlo e transporte de bola, um jogador que mesmo perante situações de forte pressão dos adversários, consegue conservar a posse de bola, o que num contexto de alto rendimento não é nada fácil, principalmente quando se têm que defrontar equipas e adversários defensivamente muito competentes a nível técnico e a nível táctico.

Estes são cinco exemplos de antigos alunos da academia benfiquista que, contemporâneos de Matic, vão refutando categoricamente nos seus clubes, jogo a jogo, semana a semana, a tese de que seria preciso uma eternidade para se encontrar jogadores de um nível competitivo suficientemente alto para jogar numa equipa que entra para vencer todas as competições domésticas nas quais se insere, e que aspira à realização de boas campanhas a nível europeu. Refutação que, recorrendo a exemplos de jogadores que ocupam várias posições, se estende à própria posição de Matic, uma vez que, afinal, o Benfica tinha em Danilo Pereira um jogador de enorme competência para a função.

Já aqui o disse neste jornal na crónica “Um ensaio sobre gratidão” que o Benfica tem muito que agradecer a Jorge Jesus pelo trabalho que este desenvolveu, nem quero colocar de maneira nenhuma em causa a grande competência do actual técnico do Sporting. E até haverá quem se digne a lembrar-me que parte destes jogadores que citei até foram vendidos a preços bastante interessantes, com contrapartidas financeiras relevantes para o clube.

No entanto, não deixa de entristecer o facto de pensar que, a nível desportivo, jovens como estes, ao invés de abrilhantarem durante mais alguns anos os relvados do campeonato português, evoluem competitivamente desde muito jovens em outros campeonatos.

Não deixa de ser algo frustrante constatar que o Benfica, neste caso concreto, não está a colher em grande medida, para seu benefício e para benefício do “ranking” de Portugal na UEFA, os frutos de um bom trabalho de formação desportiva desenvolvido.

E não deixa de persistir o mistério (será mesmo mistério?) do desinvestimento das equipas portuguesas, nomeadamente os três “grandes”, em produtos das suas escolas de formação que toda a gente minimamente entendida percebe que têm competência mais do que suficiente para integrar regularmente os trabalhos das equipas principais. O que tem Osvaldo que André Silva não tem? Será Bryan Ruiz mais competente do que Carlos Mané? Que valências terão Tobias Figueiredo ou Domingos Duarte que adquirir para igualar o nível competitivo de Naldo?

São estas e outras perguntas, a somar a várias outras que se acumularam desde épocas anteriores, cujas respostas deixo para os entendidos na matéria, o que não é o meu caso.

 

P.S.: Há casos em que, por sorte do destino, alguns destes mistérios acabam por ter um final bastante mais desejável. É o caso de André André. Um jogador de processos simples, mas de indiscutível competência posicional seja no processo ofensivo seja no defensivo, com uma execução técnica de excelência ao nível do passe em profundidade, e que já na época passada mostrou uma outra valência: a de se desmarcar competentemente em direcção a zonas onde possa receber a bola em boas condições para finalizar com sucesso. Tardou, mas para minha satisfação, o FC Porto lá foi “repescá-lo” a Guimarães. A tempo de ser decisivo no dérbi com o Benfica…

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