Por: Gonçalo Novais    

 A Selecção Nacional de Futebol Grega: Mais uma faceta negativa de um país em dificuldades

O fatídico 4 de Julho de 2004 poderia ter sido um dia histórico eternamente recordado por gerações e gerações de amantes de futebol portugueses e luso-descendentes, como o dia em que pela primeira vez uma selecção nacional principal da modalidade claramente mais popular e mediática do nosso país conseguiria, por fim, conquistar um troféu internacional, neste caso um Campeonato da Europa. Realmente, e em jeito de aparte e provocação, é irónico que no mesmo país em que modalidades de poucos recursos como o atletismo, o boccia, o ténis de mesa ou o voleibol já trouxeram títulos internacionais das respectivasselecções principais para o nosso país, e que colocou num Campeonato Mundial de Rugby uma selecção não-profissional pela primeira vez na história da competição, no futebol a nossa selecção principal, por vezes com condições invejáveis de trabalho e com atletas e colectivos de qualidade notável, não tenha nunca conquistado nenhum título internacional ao nível da sua selecção A, seja um Mundial, um Europeu ou uma Taça das Confederações.

Mas voltemos a 4 de Julho de 2004. Poucos, muito poucos, se recordarão deste dia como o dia da final fatídica entre portugueses e gregos, na qual Charisteas, após um canto bem batido por Basinas e uma saída algo precipitada de Ricardo, levou a Grécia à surpreendente conquista de um Europeu que apenas em sonhos muito loucos se veria a vencer. Mas se definir a conquista do Euro’2004 como objectivo inicial da Grécia seria uma loucura, o mesmo não se poderá dizer da competência da organização defensiva de uma equipa que iniciou, nessa fantástica campanha, a tradição futebolística de formação de bons defensores, que dura até hoje. Se Dellas já era um consagrado defesa grego ligado à Roma, e Seitaridis e Fyssas asseguravam a profundidade ofensiva lateral nos rápidos contra-ataques encetados pela equipa, e podendo a Grécia contar ainda com a consistência defensiva a meio-campo de jogadores técnica e tacticamente evoluídos como Katsouranis ou Basinas, com a visão de jogo e excelente qualidade de passe de Karagounis e a eficácia finalizadora de Charisteas, estaríamos na presença de uma equipa que, com um modelo de jogo muito bem operacionalizado baseado numa primeira linha defensiva a fazer pressão mais intensa apenas atrás da linha de meio-campo, e lançando rápidos contra-ataques no sentido de aproveitar o balanceamento ofensivo dos adversários, poderia ter as suas hipóteses de surpreender, devendo ser levada a sério por treinadores minimamente prudentes e cautelosos.

A conquista surpreendente é seguramente hoje recordada com carinho. No mesmo ano, Atenas acolheu os Jogos Olímpicos de Verão, nos quais a Grécia conquista 16 medalhas, seis das quais de ouro. No futebol, os gregos tornam-se uma selecção regularmente presente nas fases finais das grandes competições, marcando presença nos Mundiais de 2010 e 2014 e nos Europeus de 2008 e 2012. E para o Euro’2016 boas notícias em perspectiva, pois o número de participantes sobe de 16 para 24, e o apuramento, para as selecções mais fortes, fica bastante facilitado. A Grécia acaba por ficar num grupo acessível, com a oposição mais forte a vir da Roménia, e com selecções longe de um nível de competitividade alto, como a Finlândia, Hungria ou mesmo a Irlanda do Norte.

No entanto, passadas seis jornadas, o antigo campeão europeu está num nada positivo último lugar, com a qualificação completamente comprometida, e com duas derrotas com as Ilhas Faroé pelo meio. Mas porquê tamanho desastre?

Não será seguramente por causa da defesa, que mesmo com a equipa em último lugar, continua minimamente competitiva (sofreu 7 golos em 6 equipas). A competência defensiva dos futebolistas gregos é hoje sobejamente apreciada pela Europa do futebol, com as sempre defensivamente bem trabalhadas e organizadas equipas italianas na linha da frente no que se refere ao investimento feito em defensores helénicos. Jogadores como Torosidis, Manolas ou Vangelis Moras são defensores de uma competência defensiva bastante grande, à qual se juntam o lateral-esquerdo Holebas (também passou por Itália, estando a fazer uma boa estreia na PremierLeague), Sokratis (tecnicamente o melhor defesa-central grego da actualidade, enquadrando-se bem no modelo e princípios de jogo do Borussia Dortmund), Kyriakos (jovem central titular do Bayer Leverkusen), e ainda LoukasVyntra e NikosKarabelas, ambos com uma já vasta e razoavelmente bem-sucedida experiência no principal escalão do futebol espanhol.

O problema da Grécia começa onde acaba a defesa. No meio-campo o benfiquista Samaris, que apesar de jogar perto da defesa se sente confortável na construção de jogo ofensivo no meio-campo, aspecto para o qual tem competência por força da sua qualidade de passe, parece ser o único herdeiro valoroso de homens como Katsouranis ou principalmente Karagounis, este último um dos melhores médios-ofensivos do seu tempo. Onde antes havia jogadores com qualidade de passe em profundidade no sentido de aproveitar espaços defensivos maioritariamente resultantes do balanceamento das equipas adversárias para perto da linha divisória do meio-campo, existe agora um conjunto de jogadores que, pese embora não serem fracos, são tecnicamente limitados ao ponto de não permitirem à Grécia que tenha jogadores que consigam projectar a sua equipa para o ataque a partir de acções de construção de jogo ofensivo no meio-campo. Jogadores como LazarosChristodoulopoulos e PanagiotisTachtsidis (ambos do Verona), ou PanagiotisKone (Udinese) são exemplos de jogadores que, embora possuidores de competências técnicas ao nível do passe e do transporte de bola, não chegam para as necessidades de uma equipa que, na frente de ataque, surge muito poucas vezes em condições de criar grandes oportunidades de finalização junto às balizas adversárias, mesmo contra equipas colectivamente fracas. NikosKarelis, jovem avançado de 22 anos do Panathinaikos, é a grande esperança para o futuro de um ataque grego com um Samaras cada vez mais longe do nível competitivo evidenciado no Celtic de Glasgow, e com um Mitroglou que muitas vezes aparece de forma muito esporádica nos jogos, sendo pouco participativo na construção de oportunidades de finalização na frente de ataque. Os benfiquistas terão tempo de constatar essa lacuna, apesar de eu achar que o grego irá ser autor de pelo menos uma dezena de golos no clube da Luz.

O desastre grego numa fase de qualificação que parecia acessível marca não apenas uma ausência de vulto de um antigo campeão europeu no primeiro Campeonato da Europa com 24 selecções, mas marca sobretudo o princípio do fim de um modelo de desenvolvimento desportivo basicamente assente numa identidade de jogo caracterizada por um excelente domínio de princípios e sub-princípios defensivos de jogo, a par de uma escassez de jogadores tecnicamente desenvolvidos em capítulos como a técnica de condução e transporte de bola, o drible, a finalização, entre outras competências, que se reflecte igualmente nas selecções jovens do país, também impregnadas de uma cultura que fez escola a partir de Otto Rehhagel, que levou um prestigiado título internacional para o país, mas que o começa a transportar para uma crise futebolística que o empurra para fora do Euro’2016. Uma perda de vulto, de um país carismático no panorama do futebol europeu.

Deixar comentário

Comentário