Por: Vítor Santos 

No desporto de competição, a vitória e as pressões que se exercem nesse sentido, provocam ocorrências marcadas por excessos incontroláveis de toda a ordem. Estes estão cada vez mais presentes junto da opinião pública, transformados semanalmente em novos casos, graças às novas tecnologias como os telemóveis equipados com câmaras.

A cooperação é substituída pela confrontação e mesmo a concorrência dentro da equipa tende a agudizar-se por inversão dos valores que deviam estar sempre associados à prática desportiva. A vitória mesmo que inconsequente e pontual, é engrandecida de forma desmesurada e sem sentido. O adversário torna-se num inimigo; o fair-play é uma treta; a lealdade está desvalorizada; ultrapassam-se todos os limites em nome desse momento fugaz, na maioria das vezes: vitória.

Enquanto os valores do desporto eram subtraídos aos escalões seniores de competição profissional, ainda era possível acreditar nas virtualidades do desporto de formação. Contudo, a realidade com que nos deparamos actualmente é a de que o exemplo está a ser seguido. Assim, como as crianças seguem os exemplos dos adultos, também no desporto os clubes (dirigentes, treinadores, ”claques”) imitam os grandes clubes. Os maus exemplos são quase sempre os primeiros a serem apreendidos e praticados!

Não constitui novidade que para se atingirem resultados de nível mundial nas várias modalidades é preciso muito dinheiro. A questão está em avaliar o sentido que privilegiamos na prática desportiva, onde de um lado da balança temos a vitória, e no outro, os valores do desporto, de modo a redefinir-se a importância de cada um. Temos de admitir que ao darmos ênfase à vitória, estamos a comprometer seriamente o valores da formação desportiva. Cada clube tem a sua génese e nem todos são de alta competição. Nem por isso deixam de ser mais ou menos importantes.

Temos de fazer o caminho inverso ao actual, em que se olha a formação como se de alta competição se tratasse. A prática desportiva não profissional tem de ser vista sobre uma ótica humanizante, civilizacional e entendida como parte essencial do processo de educação para a cidadania. Cabe-nos fazer a opção entre uma formação para a valorização humana ou mantermos tudo na mesma, sem resultados formativos aceitáveis. Seja qual for o caminho escolhido, intencionalmente ou não, a nossa postura nunca se apresenta como neutra.

O nosso dever é o de formar desportistas que questionem, que sejam críticos, que pensem o desporto em todas as suas dimensões: lúdica, desportiva, social, económica, cultural, … e não atletas descartáveis consoante a expressão da sua prestação desportiva. Ensinar a pensar o jogo e a tomar decisões. O jovem tem de ser formado com uma visão que ultrapassa a mera discussão sobre convocatórias, titulares, substituições. Devemos despertá-lo para a consciência crítica perante as expressões negativas do fenómeno do desporto como o fanatismo, a utilização do desporto como escape para os problemas sociais e económicos, a violência patente e latente nos jogos ou a ausência de ética desportiva.

 

A ênfase colocada no sucesso a qualquer preço contribui para a instauração de uma crise de valores, de um vazio marcado pela ausência de sentido. Os atos deviam estar articulados com as teorias. O politicamente correto não resulta. Os projetos esfumaçam-se. Neste sentido impõem-se medidas necessárias e adequadas, aplicando-as sem olhar a nomes ou cargos. Não meras iniciativas de cosmética. Corremos o sério risco de sermos acusados pelas gerações vindouras, de lhe termos passado um “testemunho” engrandecido de pequenos “nadas”.

Infelizmente não somos uma influência positiva para as nossas crianças. Temos de incentivar uma nova cultura educativa do desporto, assertiva e viva. Ela está intrínseca ao próprio desporto, e o nosso objetivo é fazer dele o que julgamos mais assertivo, ou seja, não é o desejo de eliminá-lo que interessa, mas o de transformá-lo.

 

 

 

 

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