Por: Gonçalo Novais

 Independentemente da polémica em torno da inédita realização de jogos do campeonato português de futebol desde que a democracia foi implementada em 1974, o certo é que, ao mesmo tempo que os eleitores determinam em Portugal a composição política da próxima legislatura, o futebol de alto nível extravasa largamente as nossas fronteiras, e a quantidade de grandes jogos de futebol realizados a 4 de Outubro é significativa por essa Europa fora.

Em Inglaterra, às 13h30, os dois “grandes” de Liverpool defrontam-se no GoodisonPark, com Everton e Liverpool separados na classificação por apenas um ponto, vantagem pontual favorável, neste momento, ao Everton. A equipa orientada por Roberto Martinez chega ao dérbi da cidade com uma qualidade cada vez maior dos seus processos ofensivo e defensivo, e com princípios ofensivos e defensivos norteadores do seu jogo a manifestarem-se com uma qualidade cada vez maior. Se porventura a capacidade finalizadora conseguir corresponder à fluidez e velocidade do seu processo ofensivo, o Everton poderá criar sérios problemas ao Liverpool, e com efeito tem homens com capacidade para isso, como Lukaku, ArounaKoné ou Naismith. Do outro lado o Liverpool parece estar a encaminhar-se para mais uma época pautada pela irregularidade da qualidade do seu modelo de jogo e, por conseguinte, dos resultados que vai obtendo. Se é verdade que a equipa perdeu o seu melhor extremo, Sterling, para o Manchester City, também é um facto que a equipa foi buscar o não menos competente ala-direito Roberto Firmino ao Hoffenheim, ou Benteke ao AstonVilla, DannyIngs ao Burnley (um bom avançado, para quem não o conhece tão bem), ou DivockOrigi, após uma época conseguida no Lille. Mas o Liverpool, apesar da indiscutível qualidade do seu plantel, vai pautando a sua época pela inconstância da sua produção futebolística, sendo quase que uma incógnita saber com que qualidade o Liverpool se vai exibir, apesar de se reconhecer largamente os numerosos pontos fortes da equipa. Mais a sul, no Emirates (Londres), dois colossos defrontam-se, com o quarto classificado Arsenal a defrontar o líder isolado Manchester United. O simples facto de envolver duas das melhores equipas do Mundo já é por si só apelativo para estar conectado à Benfica TV 2 a partir das 16 horas, mas se a isso adicionarmos a possibilidade de ver no mesmo campo de futebol artistas como AlexisSanchez, Rooney, Oxlade-Chamberlain, Depay, Cazorla, Schweinsteiger, Ozil, Mata, entre outros, torna este jogo num duelo claramente a não perder. O Arsenal parte para este desafio com uma qualidade do seu processo ofensivo algo superior à dos líderes da liga, cujo ataque é por vezes desorganizado e caracterizado por algum défice de criatividade e excesso de bolas bombeadas para Depay, Rooney ou Martial, esperando que os cruzamentos precisos do holandês, o potente e preciso remate de Rooney e a inteligência posicional da forma como Martial se desmarca compensem alguma falta de fluidez e organização ofensiva que os líderes apresentam. Mas para equilibrar a contenda os homens de Manchester apresentam-se muito difíceis de bater na sua defesa, enquanto os «gunners» são algo intranquilos quando sujeitos a uma pressão mais forte dos adversários sobre o seu sector defensivo.

Em Espanha, o dérbi madrileno Atlético-Real comporta uma boa notícia, que é o facto de se realizar já após o encerramento das urnas, mais concretamente às 19h30. Os «merengues», jogando na condição de visitantes, não têm a meu ver a sua maior preocupação na ainda possível ausência por lesão de Gareth Bale, mas nos problemas qualitativos evidenciados num modelo de jogo no qual sobressai o excesso de individualismo das acções ofensivas dos seus jogadores. E tal facto, perante uma equipa colectivamente fortíssima a todos os níveis como a do Atlético de Madrid, pode trazer problemas à equipa de Rafael Benitez ao nível da capacidade não só de penetrar e aproveitar eventuais espaços defensivos que sejam concedidos pelos «colchoneros», como por conseguinte de criar boas oportunidades de finalização.

Viajando para a Alemanha, está agendado para as 16h30 do dia das legislativas um dos dois jogos de maior cartaz do campeonato alemão, recebendo o Bayern de Munique o seu mais forte adversário interno, o Borussia Dortmund. Pela amostra de jogos realizados pelos bávaros, já deu para ver que, aliada à qualidade de todo um conjunto de princípios ofensivos e defensivos que conjugam eficácia com a promoção do jogo e da qualidade de todo um colectivo, está em curso uma bem-sucedida renovação do plantel às ordens de Guardiola, no qual surgem novos intérpretes, mas a qualidade de jogo e o nível competitivo da equipa mantêm-se. Mais concretamente, destacar a importância de Arturo Vidal na transição do processo ofensivo do meio-campo para o ataque, e a qualidade assegurada no ataque pelos flancos de KingsleyComan e Douglas Costa, substitutos de Robben e Ribéry, numa equipa em que Lewandowski tem mostrado uma eficácia tremenda na finalização das jogadas de ataque. Mas do outro lado a qualidade está igualmente assegurada, e que qualidade, numa equipa em que dá particular gosto ver a forma como o quarteto de médios de vocação ofensiva do Dortmund (Mkhitaryan, Kagawa, Gundogan e Marco Reus) combinam entre si no sentido de criar oportunidades de finalização perigosas, tendo Aubameyang lá na frente para ajudar a concretizá-las. Neste jogo entre os dois colossos alemães, talvez o ponto menos forte que se consegue detectar em ambas as equipas é a existência de alguma instabilidade defensiva, traduzida em dificuldades de progressão em ataque organizado ou em perdas de bola ainda no seu meio-campo, quando ambas são sujeitas a uma pressão mais intensa e alta das primeiras linhas defensivas adversárias.

Em Itália, AC Milan e Nápoles defrontam-se num sempre apetecível jogo entre duas equipas que historicamente já disputaram entre si todo um vasto número de grandes jogos, marcantes na história do sempre competitivo e interessante campeonato italiano. O jogo terá lugar em Milão às 19h45, e oporá um Milan algo permeável defensivamente mas muito perigoso no contra-ataque (muita atenção aos contra-ataques rápidos dos milaneses, quase sempre bem finalizados por Bacca ou Luiz Adriano), diante de um Nápoles que, além de estar a melhorar a qualidade da organização funcional do seu processo defensivo, continua muito eficaz no seu processo ofensivo, assente numa organização funcional vocacionada para o aproveitamento da velocidade e precisão de cruzamento de flanqueadores como Insigne ou Mertens, da capacidade finalizadora de Higuaín e da mestria na distribuição de jogo para as alas por parte do sempre determinante Hamsik, a quem não convém nada dar muito espaço para rematar em posição frontal relativamente às balizas adversárias.

Em França, também existem motivos de cariz futebolístico que levam a que seja interessante não perder de vista o campeonato francês na noite de 4 de Outubro. Muitos desses motivos estarão algures situados no Parque dos Príncipes, em Paris, onde o actual colosso francês Paris SG, com um nível competitivo situado num patamar completamente distinto do de todos os seus adversários na Ligue 1, irá ter pela frente um Marselha que, já com um novo treinador e desprovido, de uma época para a outra, de jogadores fulcrais no seu processo ofensivo como Lemina, André Ayew ou Gignac, ou recuperadores de bola tão importantes como Imbula (que ainda tinha uma capacidade única no plantel de gerir a intensidade de jogo de acordo com as necessidades da equipa), está a atravessar uma temporada bem complicada em termos não apenas de resultados como também de exibições, cujos problemas também se estendem à defesa, pouco agressiva na disputa de bola, permeável na oposição aos movimentos de rupturados adversários com e sem bola, e algo desorganizada na ocupação de espaços defensivos, por força da existência, em algumas situações de jogo, de excessivo espaço entre os seus defensores quando os adversários já organizam e desenvolvem as suas jogadas de ataque no meio-campo dos marselheses. Estes erros, diante de um ataque fortíssimo ao nível quer da construção do processo ofensivo a meio-campo (destacar Verrati, Matuidi e Rabiot), quer da criação e concretização de oportunidades de finalização (Ibrahimovic, Cavani, Lavezzi, Pastore ou Lucas Moura), podem transformar o jogo num pesadelo para os forasteiros, e num passeio reforçador da ideia de domínio absoluto do campeonato por parte dos parisienses.

Uma palavra ainda para o grande jogo da jornada na Holanda, no qual os interessantes conjuntos do Ajax e do PSV Eindhoven se defrontam em Amesterdão a partir das 13h30. Além da beleza estética do modelo de jogo de duas equipas muito pró-activas na forma como procuram assumir a iniciativa de jogo e a vontade de ter sempre a bola em seu poder para se projectarem para o ataque, na Arena de Amesterdão vão desfilar todo um conjunto de jovens excelentes jogadores que, nas próximas épocas, terão capacidade para se exibir a bom nível em equipas competitivas dos melhores campeonatos da Europa. No Ajax, jogadores como o guarda-redes Cillessen, os centrais Van Rhijn e Joel Veltman, os médios-ofensivosSinkgraven e DavyKlaassen, o médio de transição e importante recuperador de bolas NemanjaGudelj, o extremo ViktorFischer, e os avançados El-Ghazi e Milik formam um vasto leque de jogadores muito jovens prestes a afirmarem-se categoricamente a nível futebolístico. E num horizonte próximo uma nova vaga de valorosos jovens começa a aparecer para dar sequência à competitividade do histórico clube holandês, liderada pelo lateral-direito Kenny Tete, pelopolivalentedefesaRiedewald, e pelo médio-defensivo e excelente organizador do processo ofensivo da sua equipa a partir do meio-campo Bazoer, que aos 18 anos já é internacional sub-21. Mas os motivos de interesse desta partida também se estendem ao PSV, que mesmo tendo perdido Depay e Wijnaldum para o futebol inglês, aparece com uma equipa igualmente competitiva em todos os sectores para esta temporada. Na baliza Zoet vai sendo decisivo quer a nível interno quer na Liga dos Campeões, na defesa destaque para a cada vez maior competência técnico-táctica de Brenet, Jeffrey Bruma ou Jetro Willems, no meio-campo o jovem de 20 anos Hendrix segurou a titularidade no meio-campo defensivo, à frente dos centrais, surgindo mais próximos do ataque os tão valiosos DavyPropper e Adam Maher, que têm habitualmente projectado com mestria a equipa para um ataque onde pontificam Lestienne, Locadia, Narsingh e o ponta-de-lança de topo desta equipa, Luuk de Jong.

Portanto, como se pode ver, as emoções fortes de domingo vão muito para além das eleições legislativas, e mesmo em termos futebolísticos, vai bem para além dos jogos dos três «grandes» do nosso futebol, todos eles realizados no dia 4 de Outubro.Razões essas de sobra para que os amantes de futebol não percam pitada do que sucederá por esses campeonatos fora no dia 4 de Outubro. Mas que não devem impedir ninguém de ir exercer o direito de votar em quem entendam que melhor representa cada um de nós. Votar, não sendo um dever (e nunca o deve ser, pois o cidadão tem a liberdade de decidir se quer ir votar ou não), é ainda um instrumento à nossa disposição para, de forma minimamente pró-activa, podermos dizer o que pretendemos para o futuro governativo do nosso país. Foi um direito legítimo que custou muito a conquistar. Tentemos não o desperdiçar por nenhum motivo!

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